The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Partícula Art Deco

Faz dois dias me dei conta que a EDP tinha mudado de imagem, produzida agora por Sagmeister, uma distracção quase imperdoável, tendo em conta que desde há um mês andava gente a fazer buscas sobre o assunto no blogue. Mas como não vejo quase nenhuma televisão e tenho passado os dias enterrado em trabalhos de alunos, no período de avaliações mais longo da minha vida (ainda não acabou), o mundo inteiro já me parece um trabalho de aluno, páginas e páginas de linhas demasiado compridas, com fontes não-serifadas e pouca entrelinha. Daí que tenha assumido que as buscas fossem pesquisa para algum paper sobre o assunto.

Mas finalmente alguém me apontou na direcção da coisa, sublinhando que “era horrível”.

Quando a vi, confesso que fiz um certo esforço para não gostar, um esforço que não consegui levar até ao fim. Comecei até a achar que a coisa fazia sentido em mais do que um nível.

É evidentemente digital, mas felizmente não se parece com os rebuçados 3D reluzentes que assolaram a última década. Parece mais uma partícula eléctrica, uma nuvem gráfica sempre a mudar de estado, qualquer coisa entre uma representação art-deco futurista de um electrão e o logo da AEG de Behrens, uma sensação acentuada pelos filmes promocionais feitos num 3D volumétrico a lembrar as ilustrações de Fortunato Depero (destes já não gosto por aí além).

Mesmo o lettering do logo, que já está mais próximo do género de caligrafia estilizada que se começou a usar na década de 1940, faz sentido nesta altura, e não apenas para reforçar o lado retro da identidade: se nessa altura foi usado para contrastar com a tipografia descontínua e fragmentada do Construtivismo e das Vanguardas, agora faz algum contraste com a descontinuidade de todo o lettering pseudodigital (com bitzinhos ou formas assumidamente vectoriais) que ainda pulula por aí.

Esta tem sido uma década bastante nostálgica e historicista dentro do design mais experimental, uma tendência que tem tido alguma dificuldade em vingar no design institucional português – basta ver o logo não muito entusiasmante de Guimarães 2012 que se limita, na sua versão mais usada, a parecer uma versão mais pixilada do Porto 2001, a ideia da identidade cultural portuguesa como algo que foi feito dando muitas voltas com o rato.

Tanto o logo de Guimarães como a nova identidade da EDP ou a identidade da Casa da Música também produzida por Sagmeister ilustram uma tendência para produzir identidades que, mantendo uma certa unidade, se desdobram num sem número de versões, parecendo estar constantemente em fluxo. Já não são sistemas rígidos modernistas, fixados em manuais de identidade a cumprir à risca, mas coisas mais caprichosas, mais aparentadas com a arte digital generativa – para a Casa da Música, Sagmeister produziu um programa que gera logos de acordo com o contexto.

Assim, temos uma identidade ao mesmo tempo nostálgica e digital, coesa mas móvel, tecnológica mas reconfortantemente clássica, adequada aos novos tempos de cautela institucional e económica.

Resumindo: para já, gosto.

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Filed under: Design

10 Responses

  1. Luís Ferreira diz:

    Mário, no quinto parágrafo usas o termo “lettering” em letra redonda, para de seguida usar itálico e misturar ainda com o uso do termo “tipografia”. Tenho alguma relutância no uso do estrangeirismo” lettering”, mas noto que o usas com regularidade. Podes por favor esclarecer-nos o que entendes por “lettering” e em que o diferencias (no significado e no uso) de “tipografia”?

    Nota: não concordo que o projecto de identidade seja assim tão bem construído – ontem recebi um convite para uma exposição da Fundação EDP (com a nova identidade) e achei a variante usada bem frágil. Para já, não gosto 😉

    • Eu uso o termo “lettering” no sentido de letras ou palavras desenhadas não-caligraficamente (embora possam sugerir caligrafia), construídas ou modificadas para um determinado contexto, sem serem compostas necessariamente através de tipografia (através de caracteres reutilizáveis ou modulares e do seu espacejamento). O “tipografia” nesse parágrafo refere-se realmente à tipografia modular do Construtivismo.

      Quanto ao Itálico e aspas, tento ser coerente ao nível do estilo, mas raramente consigo (o maior problema são os nomes dos livros).

      Update: Quanto às aplicações, como já tinha dito, não gostei do filme, mas dou o benefício da dúvida. Na Casa da Música demoraram um monte de tempo a conseguir aplicá-la bem de modo regular.

  2. Ana diz:

    Não tirando mérito ao trabalho ou ao designer, que não precisa provar nada a ninguém, mas acho que podiam ter contratado uma das inúmeras empresas ou ateliers portugueses que já provaram a sua qualidade e criatividade.

    Somos diariamente bombardeados com conversas de crise e apoio ao que é português, e depois uma empresa como a EDP vai contratar um estúdio estrangeiro sem motivo aparente (e certamente dos mais dispendiosos). Belo exemplo…

    • Só espero que não tenhas razão… São pelo menos dois designers portugueses perderam a oportunidade de desenvolver o logótipo e o tipo de letra… Só espero que desta vez o Sagmeister tenha trabalhado de graça!…

  3. filipa diz:

    Já tendo estudado esta dictomia posso dar alguns constributos, apartir do que li sobre o tema:

    “lettering” poderá ser “desenho de letras” em português.
    “tipografia” não é, de todo, “lettering”, uma vez que a tipografia é um “sistema mecânico de notação”, em que cada caractér corresponde um desenho único.

    segundo Phil Baines:
    “Se a tipografia é entendida como um produto industrial capaz de um uso generalizado, o lettering pode ser visto como a sua disciplina-mãe. Engloba todas as técnicas manuais alguma vez usadas para produzir os símbolos alfabéticos que a humanidade usou durante milhares de anos para identificar, para instruir e para apresentar ou promover algo.”
    “A noção de mecanização sugere uma das principais diferenças entre tipografia e lettering: a tipografia significa escrever através de unidades repetidas, o lettering é único.” “Type and Typography”, Phil Baines, p.10

  4. filipa diz:

    Já tendo estudado esta dictomia posso dar alguns constributos, a partir do que li sobre o tema:

    “lettering” poderá ser “desenho de letras” em português.
    “tipografia” não é, de todo, “lettering”, uma vez que a tipografia é um “sistema mecânico de notação”, em que cada caracter corresponde um desenho único.

    segundo Phil Baines:
    “Se a tipografia é entendida como um produto industrial capaz de um uso generalizado, o lettering pode ser visto como a sua disciplina-mãe. Engloba todas as técnicas manuais alguma vez usadas para produzir os símbolos alfabéticos que a humanidade usou durante milhares de anos para identificar, para instruir e para apresentar ou promover algo.”

    “A noção de mecanização sugere uma das principais diferenças entre tipografia e lettering: a tipografia significa escrever através de unidades repetidas, o lettering é único.”

    “Type and Typography”, Phil Baines, p.10

  5. Tive exatamente a mesma reação quando vi o novo logótipo. Comecei a ouvir o “zum-zum” pela manhã no departamento, e depois foi o Facebook, o Twitter…

    Fui resistindo aos impulsos até que no final do dia tive que ver com atenção. E, “Quando a vi, confesso que fiz um certo esforço para não gostar”! É claro que esta reação foi um pouco exacerbada pelo constante bombardeamento de opiniões que me foram chegando durante o dia…

    Creio que já me liguei emocionalmente ao logótipo, ou melhor—à marca. Isto porque se me perguntarem se gosto da nova cara da EDP, vou responder que sim, de forma relativamente rápida, como já aconteceu.

    No entanto, se me pedirem uma opinião mais técnica sobre o logótipo, a coisa muda de figura.

    Fui educado de outra forma. Podia falar sobre a cor, a área de proteção ou mesmo a articulação algo complexa da marca. Mas a verdade é que estes aspetos estão bem desenvolvidos no manual da marca. Posso não concordar completamente, mas aceito. O Manual em si, para além de agradável e funcional, é finalmente o primeiro manual de identidade que tem uma escala de redução funcional do logótipo—explica as articulações para impressão e para ecrã (contemplando a redução até aos 16px).

    Mas já me estou a desviar do logótipo em si—o que eles chamam de monograma, e o que aqui se referiu de lettering. Acho que a solução ainda está longe de ser interessante!

    Para tirar a teima fui ampliar o logo. E, apesar de ter encontrado alguma variação formal, continuo a achar que está mal resolvida (fruto do acaso? Vejam vocês mesmos!)

    Do ponto de vista formal, a linha está pouco modulada (1:0,94 vs. 1:0,83 da Helvetica), as junções dos carateres não tem compensação visual (o que nas versões maiores a branco ficam… estranhas), e aquele “p” que mais parece um “o” fazem com que leia sempre “edipo” em vez de “edp” (não perguntem porquê…).

    Enquanto exercício formal de lettering, ou de desenho tipográfico ainda não me convence. Ainda por cima, o tipo desenvolvido para texto, a EDP Preon de Ondrej Jób, só aumenta a confusão. Mas não me espanta. O Sagmeister já nos tem habituado a isto. Boas marcas, má tipografia…

  6. Hélder Mota diz:

    Sem entrar na discussão acerca da qualidade da imagem, apenas pergunto:

    Em 20000 designers (mais coisa, menos coisa) em Portugal, algum(ns) conseguia(m) fazer um bom trabalho?

    Mais um exemplo de boa gestão.

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