The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Resistir é um erro

São muito raras as ocasiões em que algo de verdadeiramente interessante acontece e mais raras ainda aquelas em que uma ideia é retomada pela segunda vez, acrescentando com isso o que quer que seja. São raros os segundos livros, os segundos filmes ou as segundas exposições que valem realmente a pena. Quando muito, acabam por funcionar como uma espécie de amostra de má qualidade, em contraste com a qual o original reluz melhor. A segunda edição do Close-Up é uma dessas raras ocasiões, ganhando em maturidade, segurança e economia por comparação com a sua instância anterior.

Como exposição, ganhou com o uso de um espaço mais concentrado que obrigou a uma melhor selecção, beneficiando também do alargamento a mais escolas que não as Belas Artes do Porto, incluindo alunos da Esad de Matosinhos ou da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Ganhou também com um design menos evidente e mais económico, que vive sobretudo de um pequeno catálogo discreto mas talvez mais interessante que o do ano passado: dois cadernos, um verde para os textos e um branco para os trabalhos, agrafados um ao outro, permitindo ler um título fragmentado nas dobras da lombada.

Dos textos deste ano, sobretudo nos de Ana Schefer e Teófilo Furtado ou de Isabel Carvalho, percebe-se uma tendência para uma prática de resistência ao empreendorismo e às formas instituídas de produtividade. Para Ana e Teo, não resta “criar plataformas que tenham como premissa a promoção do empreendorismo, tal como o mercado o define, mas desenvolver plataformas que reestruturem radicalmente este conceito.” Da passagem entre a academia e o mercado, acreditam que, recorrendo a uma metáfora económica “será importante calcular se a moeda que trouxemos do nosso país terá algum valor no país de chegada, e o que fazer no caso de não o ter. Deveremos trocar a nossa moeda pela moeda daquele país, sabendo que o câmbio nos irá prejudicar, ou deveremos antes criar uma comunidade que entenda essa moeda como valiosa e, por isso, promova o seu valor dentro de uma nova economia?” Esta ideia da criação de uma economia alternativa (uso aqui o adjectivo no sentido literal e não social ou estético) tem sido uma preocupação recorrente, que surge também no texto de Isabel Carvalho, que termina precisamente sublinhando que não se dedica ao negócio, mas à Economia.

De todas as ideias do texto da Isabel, a que me seduz mais torna-se explícita no próprio título, um jogo com as iniciais da editora Braço de Ferro: “Barbárie Fecunda”, recuperando assim uma  proposta de Walter Benjamin de introduzir “um novo conceito, positivo, de barbárie”, porque a nova pobreza leva o bárbaro “a começar tudo de novo, a voltar ao princípio, a saber viver com pouco, a construir algo com esse pouco, sem olhar nem à esquerda nem à direita.” Para ela, há “actualidade no tema desde que se esconderam todos os sinais de jogo. Haverá mais urgência em tratar deste assunto se for para relembrar o sentido e a importância do jogo – se os indicadores de melhorias para recuperação de um país já de si culturalmente complexo, situado à margem, apontarem para que cada um trabalhe mais e pior. Quando: jogar é o trabalho dos donos do seu tempo com contribuição social impagável – retribuição social escandalosa.”

Eu, que escrevo e publico quase tudo por aqui, gratuitamente e sem esperar disso grandes benefícios, acreditei durante muito tempo que isso constituía resistência quanto baste, mas neste momento já não tenho tantas certezas. Nos meses em que as escolas avaliam os seus alunos, o meu blogue é esquadrinhado pelas buscas de gente a procurar à última da hora conteúdos para os seus papers, que apresentarão rodeados ou não de aspas. Não me preocupa tanto o plágio como a falta de espírito crítico que o google/copy/paste implica. Mesmo as coisas mais escandalosamente erradas são duplicadas deste modo, sem qualquer tipo de verificação.

Parece-me que a única maneira de resistir a isto é o erro deliberado, a informalidade sistemática do jogo, aquele modo de falsificar as coisas a que se costumava chamar ficção. Num dos primeiros números da revista Dot Dot Dot, por exemplo, inventou-se um falso designer modernista, Ernst Bettler, que seria tomado como verdadeiro em livros, aulas e artigos de outros designers. Havia também um professor que introduzia deliberadamente nas suas aulas mentiras cada vez mais difíceis de encontrar, avaliando os seus alunos pela capacidade de as descobrir. Do mesmo modo, sinto-me tentado, cada vez mais, a usar uma linguagem mais informal e pessoal, a introduzir deliberadamente erros e omissões, pequenos estilhaços de desinformação que prejudiquem quem os copie sem pensar demasiado neles. É a minha forma pessoal de resistir a ser um conteúdo.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Exposições, Publicações

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