The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Nem Ovos, Nem Galinhas

Muita gente vê o design como algo efémero e no fim de contas dispensável, tomando decisões que lhe dizem respeito com voluntarismo. Se o fazem com o seu próprio dinheiro, para as suas empresas ou para resolver as suas necessidades individuais, o problema é sem dúvida delas, mas se o fazem enquanto representantes do público, o problema é – talvez – nosso.

A dúvida, neste caso,  tem que ver com a própria natureza do design, que actualmente é visto como uma actividade empresarial – privada, portanto: Quando o Estado, na pessoa de um dos seus representantes eleitos, contrata um designer limita-se a pagar um bem ou um serviço, como um carro, um orçamento ou uma refeição. Mas o que acontece quando a coisa dá para o torto? Quem é o responsável pelas más decisões que o Estado toma em relação ao design?

Notem que, no que diz respeito ao design, as coisas acabam sempre por dar para o torto por uma razão bastante simples: apesar de todas as suas conotações científicas e académicas, o design é sobretudo uma questão de gosto, o que significa que: a) não é eterno b) pode e deve ser discutido. Infelizmente, neste último caso, foge-se frequentemente à discussão invocando o gosto: alguém diz que um logótipo ou uma revista foram mal feitos e responde-se dizendo que há quem goste, como se isso resolvesse alguma coisa – para exemplos, basta lembrar toda a discussão do Centenário da República ou do Map. Como contra-argumento, importa sublinhar que existe uma diferença entre um gosto público e um gosto privado. No primeiro caso, é sempre necessário estar preparado para o discutir, de perceber como afecta o interesse comum, a economia, a vida dos outros, o ambiente, etc. (Até se pode especular se existe realmente um gosto privado.)

Tal como Kant já sabia bem, as decisões de gosto são tomadas com base no desejo que sejam universais, o que significa apenas que precisamos sempre de ser convencidos ou de convencer alguém da sua validade. É para esta tarefa que os designers ainda estão bastante mal preparados: o seu trabalho não é apenas produzir logótipos ou “usar os Adobes” mas também construir e aperfeiçoar as bases para a sua discussão pública.

Foge-se demasiadas vezes a esta discussão recorrendo ao argumento simplório que o design é uma actividade empresarial privada e que, portanto, a culpa do mau design do Estado é responsabilidade dos políticos que o encomendam, que o design deveria ter uma tutela ou pelo menos uma estratégia explícita, que as bases para uma discussão pública do design deveriam assentar numa base legal para essa discussão – o que no fundo é “ovigalinhizar” perigosamente  a coisa: não deveria ser a lei que sustenta (e limita) a discussão, mas a discussão que sustenta e limita a lei.

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Filed under: Design

One Response

  1. ainda neste contexto, gostaria de saber a tua opinião sobre a seguinte questão:

    porquê que cada ministério tem a sua “identidade” gráfica?

    não pertencem todos ao mesmo governo, ao mesmo estado?

    por outro lado, tanto ministério e administração pública é uma mina para tanto designer desta república.

    contra mim falo pois já participei num projecto de identidade para um ministério (já desaparecido).

    só de pensar que regularmente se mudam os nomes e identidades dos ministérios consoante mudam ministros e secretários de estado e que todos têm em comum serem muito “diferentes” dos anteriores e de doentiamente precisarem de se afirmar, vejo logo a enorme quantidade de trabalho que daí advém.

    não seria possível chegar-se a um consenso pluripartidário no que diz respeito a uma única identidade gráfica para todo o aparelho do estado que transmitisse a ideia de unidade? e isso não implicaria poupança do erário público também?

    mas se não for possível poupar por esta via então apresento uma alternativa mais viável e adequada ao estado de pobreza intelectual dos nossos governantes e daqueles que neles têm votado: proponho que se retirem as letras “ni” à palavra ministério.

    no estado em que as coisas se encontram acho mais adequado falar do mistério da educação, do mistério da justiça, do mistério da saúde ou do mistério da economia. poupam-se duas letras e adequa-se o nome à realidade.

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