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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Ideia de Estado

Há uns anos, pouco depois do anterior governo ter sido eleito, lembro-me de alguém, um estagiário num centro de emprego, me ter contado que, com a mudança de “cor” do executivo, se andava também a mudar em massa o padrão de fundo de todos os formulários de laranja para rosa, obrigando a deitar fora toda a papelada anterior.

Lembro-me da história sempre que se fala da imagem gráfica do Estado – resume bem a mistura em partes iguais de despesismo, superficialidade e vaidade produzida sempre que o design entra em contacto com qualquer coisa pública.

Lembrei-me dela quando li um artigo de Frederico Duarte (na Pública de 26 de Junho) sobre a identidade gráfica do agora extinto Ministério da Cultura. O seu autor, o designer Ricardo Mealha, acreditava que esta seria a melhor altura para repensar a fundo a imagem do Estado, “‘propondo a criação de um think tank de designers, de gerações e abordagens diferentes’ que, com ‘o moderador certo’, cheguem a ‘um consenso e proponham uma nova organização para a imagem do Estado português, válida para os próximos 20-30’. Um trabalho colectivo, ‘não do atelier A, B ou C’, que faça com que tudo funcione melhor’.”

É interessante que Mealha fale da “organização para a imagem do Estado” e não da produção dessa mesma imagem, pondo assim o dedo na ferida: não há uma estratégia para o design de instituições públicas.

Porém, não acredito que a criação de um think tank nos moldes propostos fosse resolver alguma coisa. O design enquanto disciplina é neste momento uma actividade empresarial, entendida e ensinada como um serviço comercial produzido para clientes empresariais. Assim, quando trabalha para o Estado, tende a vê-lo como apenas mais outro cliente empresarial. Deste modo, o simples facto de um designer trabalhar para o Estado tende a privatizá-lo, produzindo a sua imagem com as mesmas metodologias que as usadas para fazer a identidade de uma firma privada.

Dentro do enquadramento ideológico dominante, esta não é uma situação inesperada: se o objectivo é diminuir o peso do Estado, privatizando-o, a melhor maneira de o fazer é privatizar o modo como a sua imagem é produzida, essencialmente desfazendo o Estado num sem número de organismos, institutos e ministérios, cada um contratando o seu designer – ou, mais significativamente, usando o mesmo designer para produzir um sem número de logótipos distintos. A falta de unidade da imagem do Estado é, com efeito, a parte mais importante da sua imagem actual.

Há uns anos, já tinha sugerido que a maneira de evitar esta situação seria recuperando a ideia do design como um serviço público: já houve ocasiões em que foi habitual uma empresa de design especializar-se a fundo neste género de design, assumindo por vezes nomes semelhantes aos de uma empresa pública ou de um instituto de investigação como a Design Research Unit, responsável pela criação de muita da imagem gráfica da Inglaterra do pós-guerra, anos austeros que não se traduziram em pior design. Mesmo nos Estados Unidos, a terra da iniciativa privada, houve designers, necessariamente individualistas e heróicos que produziram uma imagem coerente para o Estado, tal como Raymond Lowey (na foto com o seu Airforce 1), por exemplo. Mas, para recuperar iniciativas semelhantes, para voltar a acreditar na ideia do design como um serviço público, seria necessário antes de mais acreditar com mais força na própria ideia do Estado.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política

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