The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Chamar os bois

Há uns anos, ainda na década de noventa, um convidado do programa cultural Acontece falava da revista que editava, salvo erro no Algarve, e do seu design apelativo quando o apresentador, Carlos Pinto Coelho, se inclinou bruscamente para a frente e ralhou “Não diga ‘design’ que é uma palavra estrangeira!” Só por si, esta cena ilustra bem a resistência que já houve à presença do “design” na língua portuguesa, mesmo quando já havia cursos de design, bienais de design e revistas de (e com) design.

Nessa altura, discutia-se ainda uma possível tradução, um termo mais português: alguém sugeriu por exemplo “desígnio”, dando azo a expressões caricatas como “desígnio de interiores”, que pareciam descrever alguém que nomeia compartimentos (imagino um sujeito vestido de preto e óculos de massa a sussurrar ao ouvido de um possível cliente : “salabanho”, “lugaragem”, “cozinhança”).

Outros sugeriam traduções mais continentais, próximas do francês ou do italiano, como “estética industrial”, que poderia ter o seu interesse ao evocar uma área tanto teórica como prática, mas que acabou por não pegar, talvez pelo próprio adjectivo “industrial” se ter tornado anacrónico.

Mas estes eram debates académicos e, na vida quotidiana das pessoas que se dedicavam àquela parte de uma revista, de um livro ou de um interior que ainda não se devia chamar design, apareciam inevitavelmente momentos em que tinha que se escrever em qualquer lado aquilo que faziam.

Assim, numa ficha técnica podia aparecer “responsável gráfico”, dando a entender gestão com uma pitada de ética; “orientação gráfica”, conotando alguém mais compreensivo que ajudava os subordinados a encontrarem o seu próprio caminho; na revista K, por exemplo, o “projecto do grafismo” era de João Botelho, enquanto a edição gráfica era de Luís Miguel Castro. Estes são apenas uns poucos exemplos, usando apenas objectos que tenho comigo em férias, mas sei que há mais, muitos mais. Podia-se fazer, sem dúvida, um dicionário arqueológico do design, dando todos os velhos significadas desta palavra, sublinhando as suas diferentes conotações.

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Filed under: Design

One Response

  1. […] na altura o design, quando aparecia de todo, ainda levava umas valentes aspas, que tinham tanto de carimbo de importação como de ironia. Algum tempo depois, haveriam outras traduções do livro (um pouco menos […]

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