The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Punk

Para mim, o Punk há-de ser sempre uma coisa mais visual do que sonora, mais americana e francesa do que inglesa. As razões para isso são simples: conheci-o através da  banda desenhada e não do gira-discos, de revistas como a (A Suivre), Animal ou Tintin, onde um desenho da autoria do colectivo francês Bazooka seria a primeira imagem do Punk a deixar-me uma impressão duradoura, chocando-me mais pela novidade violenta do traço, que já em 1978 dava a entender o estilo gráfico dominante da década seguinte, uma mistura pós-moderna de contornos grossos, tramas de impressão ampliadas e rastos estilizados de movimento.

Este é o lado francês das minhas referências, o americano só chegaria quase dez anos depois, através da revista brasileira de banda desenhada alternativa Animal, uma misturada violenta e sexualmente explícita de histórias italianas, francesas, espanholas e americanas. Nas suas páginas a delicadeza lírica de Mattotti coabitava com a carne esmagada e veias salientes de Liberatore, o fetichismo de Saudelli, o humor negro de Max, de Abulí e Bernet ou Níquel Náusea. Seria através da Animal que daria com uma das minhas maiores obsessões, a revista Love & Rockets, mantida desde 1981 pelos californianos irmãos Hernandez, dos quais Jaime seria desde sempre o meu favorito.

São histórias em geral curtas, contando peripécias simples que oscilam entre o quotidiano e o cósmico, mas que se vão acumulando aos poucos em grandes narrativas, muito, muito lentamente. Os personagens envelhecem em tempo real, mas o passado é constantemente visitado, aprofundado, trabalhado, crescendo a cada história. Este passado é sobretudo a adolescência punk de duas mulheres latino-americanas, Maggie Chascarillo e Hopey Glass, mas estendem-se às vidas de dezenas (centenas?) de personagens: Ray Dominguez. Izzy Ortiz, Rena Titanon, entre muitos outros. São vidas realistas, mas onde a realidade oscila entre o quotidiano sórdido de empregos mal pagos, pontuados aqui e ali por passagens tangenciais pela fama e pelo dinheiro de amigos bem sucedidos, por aventuras retrofuturistas com robots e super-heróis, pela violência racial, sexual, política, de gangue.

Comecei a coleccioná-las compulsivamente, primeiro nas reedições inglesas com capas de Rian Hughes, depois através das edições originais da revista ou das suas antologias, publicadas ao longo dos anos pela Fantagraphic Books, sempre graficamente sumptuosas e subtis. Pelo caminho, ia prestando atenção ao trabalho de ilustrador de Jaime, que se estendia às páginas da selecta New Yorker, às capas da luxuosa Criterion, a capas de disco aqui e ali. Completei finalmente a minha colecção através do eBay, onde comprei cerca de quarenta números por cinquenta dólares. Ainda vinham dentro dos lindíssimos envelopes originais.

Filed under: Banda Desenhada, Crítica, Cultura, Design, História, Ilustração

One Response

  1. Há muitas coleções à venda no Comixology. Bem sei que para os verdadeiros estas versões digitais para leitura em tablets são um sacrilégio mas gosto muito de ter à mão um livrinho de BD para enfiar o dente…

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