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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Velhos Tempos

Há quem ache que, com os computadores, os adobes e a net, já ninguém sabe imprimir o que quer que seja. Mentira da pura: nos Velhos Tempos, imprimia-se com uma falta de qualidade tão grande que era possível abrir uma revista juvenil em 1968 e dar com a dupla página reproduzida acima. Ou seja, se quisermos ser realmente saudosistas, até a falta de qualidade se foi tornando menos interessante hoje em dia, quando já não é possível dar com uma revista de grande tiragem onde alguém simplesmente se esqueceu de imprimir o K do Cmyk, um quarto da quadricromia, o preto.

Nos Velhos Tempos, as trocas de fotolitos eram comuns e bastante óbvias (de repente a pele de toda a gente ficava verde). Os desacertos eram constantes e quase psicadélicos, chegando a deslocar uma das cores em mais de um centímetro, numa espécie de 3D espontâneo*. Evidentemente, não havia grande controle de qualidade, porque era isto que chegava às mãos de uma criancinha ansiosa de ler a continuação das suas histórias.

O resto da revista está perfeitamente normal, tirando mais algumas páginas sem preto, o que permite algumas conclusões sobre a maneira como se fazia banda desenhada na altura. Para quem não sabe, as páginas definitivas eram desenhadas a tinta da china. A partir deste original faziam-se duas cópias: uma a preto em película transparente, outra num azul claro sobre papel de desenho. Era nesta segunda cópia que se pintavam as cores com aguarela ou guaches, usando a impressão azul-clara como guia, obtendo páginas semelhantes às do Michel Vaillant acima. O azul das guias** podia ser eliminado facilmente de reproduções posteriores, deixando apenas as cores definitivas. Na impressão final em quadricromia, combinavam-se os dois originais, usando o magenta, ciano e amarelo para reproduzir as cores e ficando o preto reservado para reproduzir o traço.

Este processo disfarçava os desacertos de impressão, escondendo-os atrás de um contorno grosso, mas não servia apenas para isso: permitia também publicar, sem grande esforço, a mesma história a cores e a preto-e-branco e, como o texto fica na impressão a preto, torna-se também relativamente fácil traduzir uma história sem serem necessários grandes retoques – o texto a cores, fora dos balões, reduzia-se a onomatopeias mais ou menos impossíveis de traduzir.

Capa (acima). Página sem preto e página normal da mesma história (abaixo).

––

* Na imagem do Michel Vaillant, para além da falta do preto, o desacerto é bastante visível.

**Será que é daqui que vem a cor das guias do Freehand e Illustrator?

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Filed under: Banda Desenhada, Não é bem design, mas...

2 Responses

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