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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Cinema depois da Aura

Ainda de volta dos catálogos da Cinemateca da década de oitenta, sobretudo Fernando Azevedo, mas também Luís Miguel Castro e João Botelho colaborando uns anos antes da revista K. São objectos exuberantes e densos, cheios de fotogramas e stills, de artigos, críticas, dicionários, cronologias, formatos académicos usados aqui de maneira emotiva ou pessoal, mas nem por isso menos interessante* – Bénard da Costa a mostrar que não era suficiente saber os factos do cinema: era preciso gostar dele com um amor maternal, incestuoso e um pouco tresloucado.

Lembrando a altura em que foram publicados, percebe-se que o cinema era uma coisa diferente e mais ritualizada. Mal havia vídeo e ver um filme num computador ainda era ficção científica. Depois de uma ida ao cinema, não ficava muito mais do que a memória do filme. Estes catálogos funcionavam como uma preparação para o acto cerimonial de ver um filme – de certo modo, faziam parte dele. Preparavam o devoto para a missa e acompanhavam-no espiritualmente depois.

Walter Benjamin falava da aura como algo típico da arte como experiência religiosa, quando estava associada a rituais e a locais muito específicos. Com a fotografia e o cinema, a arte teria perdido essa aura, desligando-se da tradição e do lugar. Mas como é evidente olhando para estes catálogos, o cinema ainda tinha a sua aura.

Apercebo-me assim que, para ser cinéfilo, não basta ter uma nostalgia dos filmes, que se pode satisfazer vendo-os ou tendo-os como uma lista de ficheiros num disco. É preciso também ter esta obsessão pelo material de apoio, pelos catálogos, pelos stills, pelo conhecimento enquanto emoção. Talvez por isso editoras  como a Criterion, que editam filmes de uma forma rica e emocional por um preço generoso, são os sucessores ainda assim diluídos das cinematecas de antanho e sobretudo dos seus catálogos.

* Os dicionários de Bénard de Costa são parentes próximos do índice emocionado de Lisboa Cidade Triste e Alegre.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações

One Response

  1. Tive este livro muitos anos (comprei-o em 1988, pouco depois de comprar o catálogo de FC, que ainda tenho). Grande texto do MS Fonseca (e um ciclo muito bem organizado: cada filme do Copola era apresentado com outros que o influenciaram, contextualizavam e foram influenciados por ele, uma ideia que se podia aplicar facilmente a estudos de edição de livros). As imagens têm o aspecto curioso de parecerem terem sido fotografadas durante a projecção dos filmes. Os acabamentos são de outro mundo, de um país onde havia dinheiro para coisas dessas… (Vendi-o no ebay para pagar outros livros que me interessavam mais, que é para o que o ebay serve)

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