The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Austeridade

A meio de Agosto e relendo muito lentamente os primeiros capítulos d’Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald, com a sua fantasmagórica procissão de imagens e reflexões sobre perda, morte, esquecimento, sobre a impossibilidade de realmente alcançar o conhecimento, em particular as páginas onde se descreve o escritório de uma investigadora académica recentemente falecida onde as folhas se tinham acumulando ao longo dos anos como formações geológicas, ocupando as mesas e depois todo o soalho, comecei a pensar mais sobre a obsessão actual de austeridade, e de como os personagens de Sebald levavam vidas solitárias e austeras, dedicando-se porém a acumular conhecimentos, uma obsessão que se manifestava em estranhas e extensas colecções de objectos, recortes, fotografias ou em viagens a um tempo densas e arbitrárias, sem que isso parecesse uma contradição.

No universo de Sebald como no dos intelectuais de alguma maneira exilados como Benjamin ou Warburg, a ideia de uma acumulação, de um fascínio pela ideia de colecção anda paredes meias com o ascetismo, uma convivência que hoje em dia seria talvez impossível: lembro-me de ter lido algures que escrever um livro sobre design minimalista seria uma contradição porque uma casa com design minimalista não teria livros. Pelo contrário, uma biblioteca que é realmente usada tende a multiplicar-se. Cada livro lido indica mais três ou quatro que talvez nunca se venham a ler, mas que tornam qualquer biblioteca incompleta.

Mas tenho dúvidas que o minimalismo hoje em dia seja realmente ascético. Se houve alturas em que significava uma resistência ao consumo, agora é sinal de um consumo redobrado, onde para ter menos objectos é preciso manter uma circulação constante, como certos coleccionadores que não tendo espaço em casa vendem regularmente as suas colecções, ou como aquelas pessoas que, gastando algum dinheiro a comer, gastam outro tanto a livrarem-se do que comeram através de dietas, ginásios ou cirúrgias. Ter um corpo que pareça ascético, imune ao consumo, é talvez um sinal de ostentação, não tanto uma indicação de austeridade mas de um consumo duplicado, positivo e negativo, como naqueles livros de contabilidade antigos onde as páginas se dedicavam alternadamente ao “deve” e ao “haver” – tantas calorias ganhas, tantas perdidas.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Não é bem design, mas...

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