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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Métodos de Burocracia II (14 Ects)

A primeira experiência que tive do ensino superior foi esperar para ser atendido numa secretaria. Ainda nem me tinha candidatado: foi uma fila para entregar os papéis que asseguravam que me podia candidatar. Um deles era o Bilhete de Identidade e, como seria de esperar tinha-me esquecido dele em casa dos meus pais, a cem quilómetros dali. Tinha uma fotocópia, mas não me deixaram matricular-me. Meti-me no autocarro, fiz a viagem que na altura demorava quase seis horas, ida e volta, apenas para no dia seguinte, depois de apresentar o BI, me dizerem que faltava mais qualquer coisa que eles próprios não se tinham dado ao trabalho de assinalar na lista de documentos necessários, mas que supostamente deveria trazer sempre comigo. Dois dias depois, com quase vinte horas de viagem em larga medida inúteis em apenas uma semana, tinha ganho o direito a candidatar-me.

Passados vinte anos, depois da informatização, da internet, não posso dizer que as coisas tenham melhorado. Sempre que entro numa escola em Setembro consigo dar com a secretaria, tornada no epicentro de dezenas, por vezes mesmo centenas de alunos sentados, de papéis na mão a aguardar a sua sorte.

A mobilidade anunciada de Bolonha é sobretudo a liberdade  para ir até à secretaria, administrar créditos como dantes se pedinchava por um empréstimo ao balcão de um banco.

Mesmo as aulas, dada a quantidade de alunos e cadeiras, vão-se transformando em consultas por marcação, que ainda fazem sentido nos estudos pós-graduados, mas que em turmas grandes são apenas mais uma maneira de mascarar a falta de conteúdos ou de preparação. Neste modelo, espera-se com optimismo que a experiência lectiva (o contacto com os colegas por exemplo), não se limite à conversa miúda de uma universidade transformada em sala de espera – já ouvi em mais de uma ocasião professores a reinvindicarem que uma boa maneira de melhorar uma escola seria tendo sofás e máquinas de café, esquecendo no entanto de sugerir uns ecrãs planos ligados à TV Cabo e umas revistas cor-de-rosa espalhadas numa mesa.

Admito, no entanto, que num país tão firmemente burocrático como Portugal, onde o temor à formalidade da lei substitui regularmente o civismo ou a ética, o ensino superior como burocracia acaba por ser uma boa formação, uma meritocracia onde se safa quem melhor navega os meandros das secretarias, quem conhece a fundo o Diário da República – talvez fosse uma boa medida atribuir ECTS ao tempo passado a tratar de papeladas, com o risco que o aluno médio teria créditos suficientes para terminar o curso nos primeiros três meses.

Filed under: Não é bem design, mas...

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