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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Triste Ciência

Não há nada que descreva melhor a tristeza do ensino superior das artes português que a ironia de ir sendo tutelado ao longo dos últimos anos por sucessivos ministérios e fundações da ciência e tecnologia. É sem dúvida um daqueles arranjos de conveniência que se fazem numa reunião antes do almoço e superficialmente dão jeito a toda a gente.

Ao governo permitiu uniformizar o ensino, fazendo equivaler medicina e arte pública, filosofia e engenharia, dando uma suposta mobilidade aos alunos através de Bolonha, tornando a produção de um artista, por exemplo, numa coisa científica que pode ser polvilhada sem grandes problemas sobre as estatísticas de Investigação e Desenvolvimento, fazendo-as engrossar.

Ao ensino das artes, a ligação à Ciência traduziu-se, num primeiro momento, na oportunidade de demonstrar que até é uma coisa séria, livrando-se duma vez por todas das fricalhices embaraçosas do pós-25 de Abril. Prometia renovação, rigor e profissionalismo num ambiente que até aí era gerido sobretudo pela legitimação: dar aulas era visto como uma honra, a recompensa de uma carreira ilustre fora da Escola, fosse na pintura, escultura ou design. A evolução na carreira fazia-se mediante provas perante os colegas de faculdade durante as quais a qualidade da obra e do seu produtor era ritualmente avaliada.

Agora acabava-se com esse sistema e seguia-se pelo modelo da investigação científica. A carreira passava a gerir-se pela produção e avaliação sucessivas de mestrados e doutoramentos e a apresentação pontual de papers. A este processo, as artes dedicaram-se com o voluntarismo desesperado que só uma escola prestes a ficar sem financiamento ou um professor prestes a ficar sem carreira podem compreender. Ou seja, aceitou-se a coisa em andamento, sem pensar demasiado no assunto e o resultado é que, da investigação científica pouco sobrou para além do rigor obsessivo pela forma, pela maneira de assinalar as citações como manda a norma portuguesa, de discutir se as teses de doutoramento podem passar as duzentas páginas, de acrescentar uns tantos diagramas ou gráficos para demonstrar que se andou seriamente a contar coisas mesmo que para isso se tenham violado as regras mais elementares da estatística.

Mas há pior: quando investigava para a minha tese, consultando papers sobre autoria no design apercebi-me que boa parte deles eram pouco mais do que artigos de opinião com um abstract no começo e uma bibliografia no fim. E nem sequer uma opinião particularmente sustentada, limitando-se em muitos casos à prescrição mais ou menos moralista, apoiada por abundantes diagramas de Venn ou fluxogramas intrincados do processo do design, chegando rapidamente à conclusão a que se queria chegar sem perder muito tempo a enfrentar alternativas possíveis.

Assim, no caso da autoria no design, as pessoas concluíam por exemplo que não deveria existir porque o design era uma actividade colaborativa, negociada com clientes e público. Mas então, o que fazer com todos os designers que editam livros sobre o seu próprio trabalho, por exemplo? Concluía-se cientificamente que não são nem deveriam ser designers, que o design não é isso. Mas e se esses livros são usados nas escolas para formarem outros designers? Respondia-se que isso é um erro e que esses livros estão errados, que não vale a pena estudá-los porque não interessam. Deveriam até ser proibidos.

Durante a investigação da minha tese recolhi e comentei dúzias de argumentos como estes. Muitos deles estão absolutamente certos da sua legitimidade de paper de ciências exactas, acreditando os seus autores que, por terem sido aceites por um júri dos seus pares, as suas opiniões deveriam ser implementadas como política. Em outros casos, acusa-se um colega de ignorância ou negligência simplesmente porque fez um trabalho na mesma área sem nos ter citado – mesmo que essa área seja tão vasta como a tipografia vernacular, por exemplo, e o trabalho incontornável só o seja na cabeça do autor.

Se há muita peixeirada na blogosfera, não é maior nem mais embaraçosa que a da investigação académica nas artes, sendo causada pelas mesmas coisas: uma incapacidade básica para argumentar, para confundir facto com opinião, que poderia facilmente ser resolvida com mais filosofia e menos ciência, mais cultura e menos tecnologia.

Update: uma espécie de continuação aqui.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Ensino, Não é bem design, mas...

3 Responses

  1. […] o texto que escrevi na semana passada sobre a aplicação de modelos científicos ao ensino das artes, apercebi-me que ele poderia ser […]

  2. […] claro que, se a economia não é uma ciência exacta, o que dizer das artes e do design? […]

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