The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Portugal dos Pequenitos do Sr. Passos

Quando vi a notícia, quase escondida no canto de baixo do Público nem queria acreditar, pensei que era dia das mentiras ou até um daqueles anúncios bem disfarçados de notícias que às vezes aparecem nas primeiras páginas dos jornais e só se identificam como publicidade por uma legenda discreta imposta pela lei.  Neste caso, não havia legenda nenhuma, era mesmo a realidade que estava a ser patrocinada e não o seu relato: iam mudar o nome da estação Baixa-Chiado para PT Bluestation.

A coisa faz lembrar os primeiros livros do William Gibson, passados num futuro onde havia regiões de marca – a única que me lembro é o “Apple County” – ou então o Snow Crash de Neal Stephenson, onde o Estado cedeu a maioria dos seus poderes e responsabilidades a corporações que se comportavam como países, espalhadas em regime de franchise pelas principais cidades do mundo. Assim, cada cidade se tinha tornado num amontoado de enclaves, com constituição própria, cada um deles a representação de um país corporativo, de marca, como a “Grande Hong Kong do Sr. Lee”.

Lida num livro, a coisa até tem um certo glamour: começamos logo a ver os primeiros minutos do Blade Runner com anúncios em LCDs gigantes, carros voadores e música do Vangelis, mas, quando nos aparece num corredor do metro, a barrar-nos a pressa com “projecções de vídeo, distribuição de rebuçados ou massagens nas mãos” é uma azeiteirice de um mau gosto sobrehumano.

Para além de se ter quebrado aquela antiquíssima tradição de dar às estações de metro nomes que tenham alguma coisa a ver com a geografia da cidade, ajudando assim os viajantes a saberem onde estão. Talvez se possa resolver a dissonância mudando o próprio nome da baixa para “PT” e o do Chiado para “Bluestation”.

Escandalosa é também a maneira como a privatização obnóxia de um espaço público é adjectivada como “inovadora” por representantes eleitos como o Secretário de Estado dos Transportes ou – menos surpreendentemente – pela vereadora da inovação (!) da Câmara de Lisboa. Ser eleito para um cargo implica aceitar a responsabilidade pela administração de um bem comum; despejá-la nas mãos de privados, que só respondem perante os seus accionistas ou – na melhor das hipóteses – os seus clientes, é muito literalmente uma irresponsabilidade.

Mesmo que os tempos sejam difíceis, mesmo que se precise dinheiro, deveria haver limites.

Update: para quem se interesse, um texto antigo sobre a privatização da sinalética, sobre quando os sinais de trânsito eram patrocinados em Portugal.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Política, Publicidade

6 Responses

  1. Daniel Pedrosa diz:

    e o estrangeirismo… onde está a cultura portuguesa no BlueStation. Até a designação Portugal T… foi reduzido a PT.

  2. é a crise a entrar-nos portas adentro em passos de coelho

  3. Nuno diz:

    É um alívio ler aqui uma crítica a esta notícia de Inimigo Público uma vez que só tenho encontrado elogios.

    A publicidade tem um lugar para existir mas é impressionante como tão poucos se importam que o espaço público seja sequestrado para se tornar num reclame contínuo: e se a Avenida da Liberdade do Tony Carreira/Continente ocorresse ao mesmo tempo que a PT Bluestation e as bolas gigantes da TMN na Praça do Comércio?

    Houve em tempos a ambição de fazer uma candidatura da Baixa a Património da Humanidade…

  4. No “Admirável Mundo Novo” do Huxley, a estação de Charing Cross passava a Charing T (do primeiro modelo automóvel de Henry Ford). Mudam-se os deuses apenas (e estes deuses modernos são MUITO mais poderosos e insidiosos). Não estamos longe disso.

  5. Tal como a CocaCola é dona de uma Avenida inteira em NY… E começo já a imaginar cidades inteiras como património de marcas de grande poder económico. Se assim fosse, eu talvez escolhesse morar numa Sony Town ou Samsung Town, onde os aparelhos electrónicos são mais acessíveis ou mesmo gratuitos para quem lá mora! Ou mesmo Honda Town, onde poderíamos observar Robots a trabalhar em todo o lado, seja lojas, cafés, supermercados, e os seus moradores tivessem mais tempo livre e precisassem de trabalhar menos. hehe Utópico sim, mas era capaz de ser engraçado!

  6. […] essa a palavra usada para justificar a estratégia de privatizar parcialmente o espaço público da Estação Baixa-Chiado, por exemplo. A Inovação neste caso é simplesmente a destruição de um recurso, de um direito e […]

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