The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que aconteceu ao design social?

Uma possível contradição: já andamos nesta crise há quase três anos e desde essa altura o design social parece ter desaparecido da ribalta, precisamente na ocasião em que poderia ser mais útil. Não quero dizer que tenha deixado de existir – procurando bem, ainda se encontram iniciativas, eventos e causas ligados ao design social –, mas já não é comum apanhar tantas referências em revistas, conferências, sites e facebooks.

A explicação mais simples seria dizer que, pouco oportunamente, passou de moda. Depois de anos a ouvir falar da sua responsabilidade política e ética, os designers simplesmente partiram para outra. Descartaram tudo isso como se fosse uma fonte do ano passado.

Uma explicação mais complicada seria lembrar que muito deste design social fazia parte de um movimento mais geral da privatização da assistência social, da tentativa de tornar a caridade numa forma de empreendedorismo. Com a crise e deixando de haver dinheiros privados para estas causas, o design social deixou de ser “interessante”.

Mas é agora, mais do que nunca, que o design deveria tomar parte activa na reconstrução económica e social da nossa sociedade. Tenho dúvidas que a experiência dos últimos anos nos seja agora útil, ocupados numa boa parte a tentar fazer da ética e da política uma mercadoria – em acreditar e levar outros a acreditar que a ética se pode resumir a uma escolha entre marcas.

Seria necessário recomeçar do zero e procurar outros exemplos de política no design, mais adaptados aos novos tempos de austeridade e desespero económico e político. Recuperar a ética como um modo de ser e não um modo de ter – que possa ser exercida sem dinheiro, portanto.

Advertisements

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política

8 Responses

  1. jorge diz:

    Infelizmente trabalhar no design social, tem que ser sim, coisa de designers emprendedores, governo ou entidades tem que procurar e bancar profissionais consultores em Design, de fato o Sebrae faz isso com sucesso em varios estados brasileiros.
    O trabalho do designer nao tem que ser caridade, como designer também come, tem que fazer projetos e procurar apoio de entidades e ONGs sociais que hoje fazem coisas bem legais onde o design poderia estar. Falta nao vontade de trabalhar de graca e sim aprender e procurar como se engajar e propor acoes em programas de prefeituras e outras entidades

  2. http://www.behance.net/gallery/STICKERS-%28PORTUGUESE-INTERVENTION-DESIGN-COLLECTIVE%29/2189083

    Deixo aqui um trabalho de design de intervenção social, realizado pelo colectivo ao qual pertenço…

    Criticas serão bem vindas…

    João F. Marques

  3. […] Numa altura em que a intervenção pública deveria ser mais intensa, o design, apesar das suas supostas ambições sociais e éticas, está em larga medida silencioso. E o”consenso” está mais sólido do que nunca. Share […]

  4. Pitx diz:

    Não acham que a falta de tema e debate sobre design não terá necessariamente a ver com a falta de representatividade da profissão no nosso país. De que vale falar sobre nada?! Existem uns quantos ateliers ou empresas que fazem o seu trabalho (não sei como), o que é fantástico. Mas de resto o que vejo é um lobby, não diria gigantesco porque é tão pequeno e ridículo, quanto essa mesma representatividade, e que saca favores atrás de favores e se rodeia de mediocridade para sobreviver. O que é a experimenta design senão o maior exemplo de mediocridade, e do quão nefasto tem sido este faz de conta? São sempre os mesmos a ir à fonte, e não me parece que estejam muito melhor na vida. Aquilo tem sido o sustento de 4 ou 5 ilustres designers, que depois decidem quem virá no seu encalço. Depois é vê-los a participarem como júris, sem a menor vergonha na cara, na maior fabrica de ladroagem de que tenho ideia, ou seja os concursos de design. E os resultados, ou muito me engano, ou são na maior parte das vezes manipulados, consoante o júri e os participantes.
    Como pode haver critica de design, se design em Portugal é estéticismo? Acho que tem um bocado a ver com a forma como somos interpelados pela ideia. As poucas vezes que me deparo com a palavra design, hoje em dia, é quando abro a caixa do correio, e vejo um pedaço de papel onde posso ler: “caixilharia arte&design”. Serve para tudo, não serve para nada.
    Se o tema só disser respeito à seita dos designers, nunca mais saímos deste marasmo. Conferencias, onde só aparecem designers, ou a fauna e a flora que circula pelos diversos “happenings”, são interessantes para os interessados, mas não nos leva a lado nenhum e só fecha cada vez mais as portas à aceitação geral.

    Se o design é mal aceite e compreendido, então em vez de se andar a enganar tolos com bienais sobre nada, se calhar mais valia repensar o modelo de ensino. Certas universidades lá fora, integram os alunos em empresas, onde farão o projecto de final de curso. Eu falo por mim, mas isto de andar a fazer projectos utópicos, sem ter posto os cotos numa única fabrica, e andar aí armado em artista plástico tem os dias contados. Desta forma acho que teríamos um duplo efeito: não só o tecido industrial tomava conhecimento da mais valia que é trabalhar em estreita relação com designers, como os alunos sairão muito melhor preparados para a realidade que os espera. Tenho a certeza que em poucos anos deixava de se falar de concursos de design, porque deixariam de ser necessários, e a sociedade muito naturalmente passaria a falar do tema.

    Não sei se iria mudar as coisas com a velocidade que desejamos, mas tudo leva tempo.
    Não preciso ser-se um erudito ou um caviar da vida para dar uma opinião, válida ou não. E para se avançar e preciso errar, e voltar a errar

  5. […] quando a novidade esfriou e se institucionalizou. Outras respostas dão a entender que a crítica, tal como o design social, não sobreviveu bem à crise económica, tornando-se mais difícil nestas alturas dizer mal do […]

  6. […] Estado Social à caridade, soluções políticas a soluções privadas. Se não gosto do chamado design social, é porque se resume demasiadas a fazer um rebranding da caridade actualizando-a para uma forma de […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: