The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fraude Académica, SA

Como de costume, nada de surpreendente embora muito, muito preocupante: na última Visão,* uma reportagem sobre a fraude académica em Portugal, com histórias escabrosas de estagiários que, ao aceitarem um emprego a recibos verdes numa empresa de “apoio à investigação”, descobriram que andavam a ser (muito mal) pagos para fazerem a investigação toda, trabalhando em autênticas fábricas do canudo, onde bastava o aspirante  a doutorado deixar o tema e a bibliografia, pagar um ou dois milhares de euros e ir buscar no fim a tese, ainda a fumegar,  às vezes na manhã do dia da entrega.

De acordo com a peça, uma das principais causas para a explosão da fraude académica de topo seria a própria explosão da investigação, que quadriplicou nos últimos vinte anos, mas sobretudo a obrigatoriedade de concluir um doutoramento até 2014 para poder entrar na carreira universitária. Assim, não espanta que muitos dos casos apanhados sejam precisamente de professores, que viram o seu título anulado e ainda correm o risco de apanhar com uma pena de prisão.

Mas se o artigo dedica toda a sua atenção aos casos em que se deu com a artimanha, nem sequer fala do que acontece quando a coisa “corre bem”.

Entrar na carreira significa assumir cargos de chefia dentro da hierarquia de uma faculdade (fazer parte dos conselhos científicos, de departamentos, etc.) Implica orientar alunos de pós-graduação, mestrado e doutoramento. E como pode alguém safar-se a ensinar uma coisa que não fez?

A resposta a esta pergunta não é dada, ou sequer sugerida, no artigo da Visão. Porém, há alguns anos li uma peça semelhante sobre fraude académica nos Estados Unidos (não sei onde e nunca mais a voltei a ver), onde surgiam algumas pistas sobre as causas e as consequências mais profundas deste género de crime. No artigo, que não me lembro se era escrito na primeira pessoa, um especialista em produzir teses por encomenda (chamado Dark Scholar, acho eu), dizia que tinha dois tipos de cliente: o aluno pobre que só queria um trabalho para rapidamente se livrar de uma cadeira ou de um prazo; e o aluno filho de pais ricos que não se contentava em pagar e levar, mas era muito mais exigente, supervisionando frequentemente o trabalho e sugerindo alterações. O Dark Scholar concluía cinicamente que, neste último caso, cometer fraude académica seria a melhor preparação que um potencial gestor poderia ter, dando-lhe experiência prática a orientar o trabalho de terceiros.

Assim, não me parece que a causa do problema seja apenas a facilidade do copy/paste, mas a desvalorização sistemática da produção efectiva de conteúdos em detrimento da sua mera gestão, da procura de conhecimento em detrimento da sua administração. O corte dos financiamentos, o aumento das turmas e orientações, a diminuição dos prazos de elaboração de teses e dissertações, que são escritas frequentemente sem qualquer tipo de dispensa de serviço enquanto se dão cinco ou seis cadeiras, tudo isto dá a entender uma visão meramente económica do ensino e da investigação, onde por defeito quem se dedica a produzir conhecimento tem uma vida bem mais difícil do que os que se limitam a administrá-lo, não escrevendo investigação mas supervisionando a sua produção, não dando aulas mas comissariando convidados, etc.

*Não há link disponível.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Ensino

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