The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Suaves Prestações Mensais

Numa época de austeridade, é talvez importante reflectir sobre os efeitos da economia no design e em particular na edição. Esta tem sido uma crise associada à dívida pública, ao crédito e ao sistema bancário. Tem-se dito que acabou o recurso ao dinheiro fácil, barato, que nos permitia consumir antes de ter meios para o fazer. Em outras alturas, relativamente recentes, a ética social reprovava o endividamento pessoal: havia uma insistência em pagar as coisas a pronto, fossem elas uma batedeira ou um apartamento. A própria palavra hipoteca, quando usada em filmes ou livros, tinha toda a ameaça de uma maldição saída de uma tragédia grega.

Naturalmente isso reflectia-se na maneira como se consumiam livros e revistas. Se agora os compramos inteiros mas podemos pagá-los às prestações, já os comprámos às prestações, pagando cada uma delas a pronto. Era essa a lógica dos fascículos: livros vendidos mensalmente, aos pedaços, para posterior encadernação. Foi assim no caso do Lisboa Cidade Triste e Alegre, de Martins e Palla, ou da Arquitectura Popular em Portugal.

Mesmo no caso de uma revista, havia a obrigação de a tornar num investimento, coleccionando-a e encadernando-a, para protecção mas também para a promover ao estatuto de livro. Era o que acontecia com publicações como a revista Tintin, que vendia capas para encadernação semestral ou o caso mais interessante da Contemporânea de José Pacheko, que só podia ser lida depois de encadernada: era distribuída como um conjunto de folhas soltas e planos de impressão por cortar dentro de uma capinha de papel.

Actualmente, não tenho visto muitos exemplos do uso de fascículos, embora se possa perceber uma lógica próxima nas edições da Dexter Sinister, em que um conjunto de artigos vão sendo produzidos e publicados (na internet, em outras publicações), para posterior compilação, como no caso dos Bulletins of the Serving Library ou no Portable Document Format – o que não é a mesma coisa, porque não se trata de uma dispersão física que é recolhida.

Mas, enfim, será que com a crise o fascículo vai voltar ou é apenas um artefacto de modos de distribuição obsoletos?

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Prontuário da Crise, Publicações

6 Responses

  1. É apenas um artefacto de modos de distribuição obsoletos !
    Aliás quando percebi que os alfarrabistas compram a generalidade daquilo que vendem a 30 ou 40 centimos, achei que estávamos perante uma vaga de obsolescência enorme!

  2. JL Andrade diz:

    Nada obsoleto. Muito usado pelos jornais como encartes promocionais.
    talvez não seja a mesma coisa, mas a ideia está lá!

  3. […] um a um, embora sob compromisso – e, no caso da colecção acabar, ninguém fica a perder. É mais um exemplo de um modo de distribuição que corresponde a uma economia distinta, onde as pessoas preferiam […]

  4. […] caso para perguntar – mais uma vez – se não irão ressuscitar também outros sistemas de pagamento típicos de economias mais […]

  5. […] bom exemplo da estratégia é a Contemporânea, mas a revista que começou por ser conhecida por Solução Editora, também de José Pacheko, […]

  6. […] aos fascículos da Volta ao Mundo de Ferreira de Castro que a Cândida me trouxe – tenho andado fascinado com este formato efémero, a meio caminho entre a revista e o […]

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