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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Um Livro não quer dizer “Edição”

Tem havido – felizmente – muita balbúrdia na área da edição independente. Nem falo da multiplicação das próprias publicações, dos eventos em que são lançadas, dos locais onde são vendidas, mas da sua recepção crítica e teórica. Por exemplo, chamei a este tipo de edição “independente” e tenho a certeza que muita gente achará a qualificação discutível, preferindo “edição alternativa”, “caseira”, “de pequena escala”, “nada disso”, etc.

A bem do rigor, uso o termo como se usam certas classificações de género na música – como Hip Hop ou Dubstep – enquanto maneira de circunscrever de um modo mais evocativo do que científico um conjunto de características formais, geográficas, históricas, etc. Neste caso, falo das tais publicações, dos eventos em que são lançadas, dos locais onde são vendidas e do que é dito sobre elas – a área onde tem havido a tal balbúrdia.

Como qualquer objecto ou tendência com algum interesse é uma zona disputada e discutida por pessoas com ambições e objectivos totalmente distintos. Um bom exemplo disso foi o artigo que o suplemento Ípsilon dedicou à edição: boa parte da peça de três páginas era dedicada ao Livro de Artista (tiragens pequenas, objectos tendencialmente únicos), enquanto duas pequenas caixas resumiam a situação do livro de fotografia (peça mais interessante, embora curta) e da edição independente (muito mais vaga).

No destaque dado ao Livro de Artista percebe-se uma ênfase muito grande dada à ideia de interpretar a edição independente como um modo de produzir livros como se fossem obras de arte (os tais objectos únicos ou de tiragem limitada, produzidos à mão, numerados, etc.) Ouve-se inclusive conversas entusiasmadas sobre como a exposição de determinado livro num museu ou a sua discussão num jornal veio aumentar o seu valor de mercado.

Porém, o Livro de Artista é talvez a parte mais chata da edição actual ligada às artes. O que tem interessado nos últimos tempos não é tanto o livro como arte mas a edição como arte. Ou seja, o que interessa não são os objectos, mas a própria edição, que consiste em editar, publicar, imprimir, distribuir e vender. Todas estas acções têm sido problematizadas de modo muito evidente por gente como a Dexter Sinister, Roma Publications, McSweeney’s, um grande etc.

Aqui em Portugal temos o exemplo do Navio Vazio, um pequeno espaço ligado à editora Braço de Ferro, e considerado como uma das suas edições. Ou seja, o espaço não é gerido de modo curatorial mas editorial. O processo de preparação de uma exposição ou evento é feito com os mesmos métodos que são usados para fazer uma publicação – o que implica escrita e reescrita, corte e cola, reedição (do lado da concepção) e uma leitura mais lenta e complexa (do lado do espectador, transformado aqui em leitor).

Naturalmente, a rejeição de um modelo curatorial implica um certa rejeição das situações em que é aplicado (museus, galerias, bienais). Não uma daquelas birras dramáticas que o mundo da arte tanto gosta, mas simplesmente um reconhecimento operativo que a curadoria tem assumido um papel total mas problemático, ao qual podem e devem ser sugeridas alternativas (uma delas é a edição).

Assim, tal como assinala Saul Anton numa das últimas Afterall, “Asserting the priority of publication over exhibition, Dexter Sinister affirm and transform the institution of art”, e é portanto natural que haja uma certa resistência – mais ou menos consciente – por parte das instituições (crítica, galerias e museus) quanto à situação. Circunscrevendo este fenómeno da Edição como Arte ao pacato Livro de Artista, muito mais adequado à circulação nos tradicionais mercados da arte, tentam dar a entender que estão na moda sem que isso lhes dê demasiado trabalho. O costume.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Exposições, Publicações

3 Responses

  1. isabel carvalho diz:

    “No contexto cultural contemporâneo, o Navio Vazio poderá ser reconhecido, de modo simples e directo, como um espaço expositivo distinto da galeria de exposições por se distanciar dos protocolos que provêm do interesse comercial, nomeadamente nas escolhas, apresentação/disposição e periodicidade da programação.

    Contudo, desde início do seu funcionamento, é um espaço cujas intenções (ainda que ténues, explicitadas no texto “NAVEGAÇÃO ERRÁTICA DO LIVRO–SER–ESPAÇO”, publicado no livro Impossuível) pretenderam afastar-se da mera definição por alternativa a um modelo económico, procurando antes definir-se a cada passo como um novo enquadramento estético de funcionamento. Este enquadramento engloba naturalmente na sua realização uma alternativa económica, da qual parte como base para acumular progressivamente novas camadas de significado e importância.

    O Navio Vazio começou por acompanhar o trabalho editorial da Braço de Ferro. Surgiu depois de muitos livros terem sido publicados e como forma de escoar as ideias que surgiam do entusiasmo editorial, de seleccionar, agrupar e organizar informações, conteúdos e contribuições. O Navio Vazio como projecto ganhou maior importância quando a Braço de Ferro se concentrou no próprio processo de edição, evidenciando-se precisamente desde então o cruzamento entre a editora e a gestão do espaço.

    O Navio Vazio seria, então, um espaço que, a cada momento, funcionaria como teste à publicação dos projectos da Braço de Ferro, assumindo-se assim a prática da edição como aproximada da prática curatorial. Contudo, o funcionamento do Navio acabou por dar razão a fortes derivas, lançando confusão tanto na expectável relação entre os dois projectos como em cada um deles – a Braço de Ferro repensa-se (como sempre fez, fazendo deste repensar a natureza da sua existência), e o Navio assume-se na instabilidade típica do contexto marítimo.”

  2. “O que tem interessado nos últimos tempos não é tanto o livro como arte mas a edição como arte. Ou seja, o que interessa não são os objectos, mas a própria edição, que consiste em editar, publicar, imprimir, distribuir e vender”.
    Fico na dúvida: se os objectos não tiverem qualidade plástica e não forem conceptualmente estruturados e bem editados será que importa torná-lo público? (no sentido primeiro do termo pois editar antecipa e corresponde a etapas de produção e impressão do dito objecto gráfico. Aquele que edita toma uma série de decisões sobre o objecto que pretende “fabricar” antes de o tornar público-de publicar.)

    Quanto ao último parágrafo parece-me que houve pouca atenção à disparidade entre a circulação que existe em França, EUA, Bélgica, etc. e o vazio – falta de “espaço” destes objectos no mercado galerístico português. Acho o artigo muito interessante até por conter ideias tão diferentes das minhas – por exemplo, conheço muitas tipologias de livros de artista mas nenhum que possa apelidar de “pacato”.
    Discutir é um bom desafio, gostava de o convidar a participar numa mesa redonda em Dezembro.
    Um abraço,
    Isabel

    • Respondendo à pergunta: a qualidade estética e plástica de um livro (ou mais exactamente de uma publicação) não se limita às suas qualidades materiais, tanto mais que estas são determinadas por estruturas de edição, produção, distribuição, etc. A problematização e o uso estético destas estruturas é´o principal interesse da edição experimental contemporânea.

      Em Portugal, tem havido bastantes iniciativas dentro deste género de edição (embora menos que em outros países), mas sem muita divulgação em jornais ou televisão. Mesmo algumas exposições internacionais ou investigações académicas a que pude assistir foram interpretadas (erradamente) como estando relacionadas com Livros de Artista e desvalorizadas por isso mesmo (principalmente por ignorarem uma tradição do livro como objecto único que não é a sua). A intenção deste texto era corrigir parcialmente a confusão.

      Quanto à mesa redonda: (dependendo das datas) claro que sim e com muito gosto.

      um abraço,
      mário

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