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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte Pública

(via)

Há designações verdadeiramente infelizes e “Arte Pública” é uma das piores. Apesar de toda a sua justificação teórica, de conversas sobre mapeamentos, cartografias e contacto etnográfico com as populações acaba por se traduzir numa vaga ocupação de passeios e praças. É mais uma Arte dos Espaços Públicos que uma Arte Pública – e é nesta nuance que reside toda a infelicidade do termo.

Ao adjectivar de “público” um pequeno conjunto de acções e locais muito específicos, muito especializados, associados principalmente aos espaços públicos urbanos – uma arte feita fora da galeria ou do museu –, dá-se a entender que tudo o resto se tornou privado. Se a Arte Pública se faz fora do museu (ou até dentro dele), isso significa apenas que o museu se tornou irremediavelmente privatizado, mesmo quando é uma instituição pública. Assim, a Arte Pública foi-se tornando, numa das suas vertentes, como um sinal da privatização crescente da sociedade e dos seus valores. A Arte Pública assinala a erosão daquilo que a nomeia.

Uma arte pública mais interessante deveria centrar-se em problematizar estas diferenças entre público e privado; entre tornar público, publicar, e tornar privado, deixando de se preocupar tanto com questões de espaço e território literais e pensar problemas como os direitos de autor, a representação e intervenção políticas, etc. – ou seja deixar de ser uma arte dos espaços públicos e passar a ocupar verdadeiramente uma esfera pública.*

*Curiosamente, dessa problematização toda ocupa-se a arte anti-institucional, dando a entender também que as instituições se tornaram de algum modo instâncias de privatização.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Política

2 Responses

  1. Mafalda Luz diz:

    Se é uma questão de designações, chamemos-lhe Arte para o Espaço Público ou no Espaço Público. Porque pode, de facto, existir Arte nos Espaços Públicos.
    Se, pelo contrário, é uma luta entre o público e o privado, a arte não é pública, nem a do museu se tornou privada.
    Mas importa referir que a Arte chamada Pública, “uma arte feita fora da galeria ou do museu” é também pública por sair das 4 paredes, por jogar com variáveis bem distintas das presentes num museu ou galeria – white box.
    Logicamente o termo Arte Pública é mal empregue, porque nem a obra de arte mais pública é realmente pública.

  2. […] outras ocasiões já me queixei da infelicidade da expressão “arte pública”. Num momento em que a […]

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