The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cayatte no Prós e Contras

Mais uma vez sem muito tempo, portanto impressões a quente depois de ter perdido a coisa ontem e a ter visto no site da RTP: Cayatte foi logo o primeiro convidado a falar, em representação do Centro Português de Design, e esforçou-se por apresentar o design como solução para a crise e motor do desenvolvimento do país.

Fátima Campos Ferreira foi insistindo com o seu tacto habitual que Portugal não é um país marcante em termos de design. Cayatte respondeu-lhe assegurando que o design é agora universal, que não há estilos nacionais, que já não há grandes ícones, “há uma espécie de esperanto no design mundial”, que nunca houve tantos designers de qualidade em todas as áreas, nem gente a fazer mestrados e doutoramentos lá fora.

Sublinhou as funções do CPD: articular o design com as empresas, formar empresários na área do design, etc. Disse que o design não é uma disciplina artística: tem de interpelar o tecido, a sociedade, as empresas. Que é preciso o design ser ouvido muito antes do projecto, numa capacidade estratégica, pelas empresas, universidades, etc. Que temos mais de noventa ofertas de cursos (calculo que entre licenciaturas, mestrados e doutoramentos). Que o design é importante como factor estratégico na Inglaterra e gera uma parte substancial de rendimentos na Holanda (1%).

Mal terminou saiu da sala por causa de compromissos inadiáveis – o que é pena, porque não houve discussão do que foi dito. De qualquer modo, duvido que houvesse, o design ainda é tratado neste tipo de situação como uma coisa mais ou menos exótica e optimista, que toda gente louva desde que isso não resulte no que quer que seja – lembro-me que, logo em 2008, no primeiro Prós e Contras sobre a crise económica mundial, a Guta Moura Guedes fez o mesmo género de promoção do design como possível saída. Na verdade, a ideia do design como saída para a crise já rola por aí desde que a palavra “design” é usada em Portugal. O design acaba por ser uma daquelas aves de mau agouro que só aparece durante as crises.

As razões do falhanço da afirmação do design português (e do design em Portugal) são muitas e variadas. Centrando-me apenas nas que transparecem no discurso de Cayatte, há uma que salta à vista: acreditar no design como factor que ajuda a exportar produtos sem perceber que só o consegue fazer se for em si mesmo exportável. No design gráfico, e apesar do suposto universalismo do design, as tendências do design actual regem-se sobretudo pelo eixo Estados Unidos/Inglaterra/Holanda – estes países não se limitam a exportar produtos de design, mas o próprio design enquanto prática, através da internacionalização do seu ensino, de publicações e conferências, que efectivamente concentram o grosso do pensamento e discurso público sobre design no mundo. No caso português, a grande quantidade de cursos não consegue captar uma audiência internacional, nem temos – como Cayatte sublinhou – nada de particularmente diferente para dizer. Nesse aspecto, como em tantos outros, limitamo-nos a importar passivamente os princípios do nosso design, e é por isso (salvo raras excepções) que não o conseguimos exportar.

Curiosamente, os países que Cayatte apresenta como exemplo – a Holanda e a Inglaterra – conseguem um discurso próprio precisamente através da crença muito antiga que o design só ganha a tal capacidade de interpelar a sociedade e as empresas porque é uma actividade artística – e não apesar disso. Que não se pode separar a experiência estética da produção, da economia, da sociedade. Infelizmente, o design vai tendendo cada vez mais para a mera gestão, esquecendo-se de cuidar do pormenor, de que é importante fazer as coisas com um bom acabamento, etc.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Política, Prontuário da Crise

11 Responses

  1. Situr Anamur diz:

    Mas design não é apenas estética, e tendo em conta o público e o receptor a quem a mensagem se destinava até seria suicida falar apenas disso. A EXD puxa para um lado, o CPD para outro. A virtude deverá encontrar-se algures no meio (e sem colocar de parte a “mera gestão”).

    • Nos tempos que correm, o problema não é de todo achar que o design é apenas estética. Tanto quanto me lembro nunca vi ninguém a defender isso. Tal como a intervenção de Cayatte demonstra bem, o design tem-se distanciado sistematicamente da estética em nome de ser considerado uma actividade séria, empresarial, científica, etc. A qualidade estética do trabalho é quase sempre vista como algo intangível, ao ponto de se defender um trabalho medíocre simplesmente porque foi caro, porque foi feito por uma equipa grande, etc. Esse distanciamento tem acontecido nas escolas, no mercado e em praticamente todo o lado. O resultado é pura e simplesmente design feito para cumprir o expediente, sem grande qualidade ou exigência.

      O problema do design português não é, nem nunca foi, falta de ligação à gestão ou às empresas, mas de qualidade, pura e simples. O ensino português do design sempre se centrou preferencialmente em formação dada por empresários do design e na formação para o mercado, nesse aspecto sempre funcionou como Bolonha gostaria de funcionar, formando tendencialmente estagiários para os estúdios e agências que só alcançariam a totalidade da sua formação já dentro do mercado. O que sempre faltou foi alguma reflexão estratégica, teórica e crítica, feita de modo sistemático e consequente. Infelizmente essa investigação só começou a aparecer já dentro do corridinho das novas pós-graduações, o que lhe garante a irrelevância quase total.

      O problema, mais uma vez, nunca foi o designer estar em risco de ser uma actividade apenas estética ou teórica – nenhuma destas actividades exclui uma ligação às empresas, à sociedade ou ao resto. O problema é que a visão empresarial e tecnicista se impõe destruindo os poucos restos de qualidade estética ou de investigação teórica que não sirvam directamente os seus interesses.

      • Situr Anamur diz:

        “O problema do design português não é, nem nunca foi, falta de ligação à gestão ou às empresas, mas de qualidade, pura e simples.”

        – Como define qualidade? Como sabe que existe essa ligação entre empresas e design(ers), á estudos ? (pelo menos o Design Council tem uns quantos sobre esse assunto, cá nunca vi)

        “O ensino português do design sempre se centrou preferencialmente em formação dada por empresários do design e na formação para o mercado, nesse aspecto sempre funcionou como Bolonha gostaria de funcionar, formando tendencialmente estagiários para os estúdios e agências que só alcançariam a totalidade da sua formação já dentro do mercado.”
        – Discutível. Algumas escolas formavam pessoas que nem para estagiários serviam e supostamente as escolas deviam também preocupar-se com formar pessoas prontas para o mercado de trabalho.

        “O que sempre faltou foi alguma reflexão estratégica, teórica e crítica, feita de modo sistemático e consequente. Infelizmente essa investigação só começou a aparecer já dentro do corridinho das novas pós-graduações, o que lhe garante a irrelevância quase total.”
        – Só reflexão não leva a lado nenhum, é preciso haver acções posteriores que vão há raíz do problema. E relexão sobre que temas?

        “O problema é que a visão empresarial e tecnicista se impõe destruindo os poucos restos de qualidade estética ou de investigação teórica que não sirvam directamente os seus interesses.”
        – Lá está, como define qualidade estética? Como define interesse teórico? E visões empresariais, como os chapéus, existem muitas. Certo que ainda existem muitas fábricas de design.

      • 1 – Pode-se definir qualidade de uma série de maneiras. Cada vez que critico um trabalho digo também, de modo mais ou menos, explícito, quais os critérios que me guiam. Um dos meus favoritos, no caso do design gráfico, é a tipografia, sobretudo quando usada num contexto utilitário: texto corrido, legendas, etc. Usando qualquer manual de tipografia se consegue perceber que a maioria dos designers portugueses – e não apenas os estagiários – não sabem escolher a largura de uma coluna, não sabem como fazer um entrelinhamento minimamente aceitável, não sabem como combinar duas fontes que não sejam da mesma família, não sabem usar tipografia em negativo, e por aí adiante. Já o defendi em outros sítios, mas a preocupação tipográfica é uma coisa recente entre os designers portugueses e isso nota-se. E quem diz tipografia, diz tratamento de imagem, capacidade para produzir, editar e gerir conteúdos. Já agora também se podia incluir a fiabilidade e a ética dentro das qualidades. Em qualquer um dos critérios, dada a quantidade de escolas e de designers e as quase quatro décadas de design, devíamos estar muito melhor.

        2 – Mais uma vez, formar gente para o mercado de trabalho é um chavão vago, que normalmente se traduz em formar pouco mais do que estagiários. Formar gente para o mercado de trabalho tal como ele está devia ser – quando muito – o requisito mínimo de um instituição de ensino e não o máximo.

        3 – Sobre que temas? Qualidade, ensino, acções posteriores, e por aí fora.

        4 –Quanto à qualidade estética, ver o ponto 1. Quanto ao interesse teórico: a capacidade de produzir modelos que permitam conceptualizar, antecipar e corrigir situações e objectos, de modo eficaz e criativo. A melhor investigação dedica-se a fornecer dados e esquemas argumentativos que sustentem uma discussão pública produtiva – que é como quem diz uma democracia eficaz. Se o design não consegue uma presença na sociedade portuguesa é porque não tem produzido esses argumentos de modo capaz.

        Finalmente, lendo os programas, planos de estudos e objectivos da grande maioria dos cursos chega-se facilmente à conclusão que todos eles pretendem formar gente para o mercado, desde há décadas. Se o fazem bem ou mal, tentam apesar de tudo fazê-lo. Dada a quantidade de designers em Portugal e a pouca influência do design na própria sociedade portuguesa, é possível concluir que a política de formar gente para o mercado não está a dar certo. Agora, muita gente acredita que isso acontece porque, apesar de todo o palavrório, o ensino ainda não está realmente a formar gente para o mercado e que devia fazer isso ainda mais transformando as escolas em empresas, chamando empresários às salas de aula. Mas, tendo em conta que boa parte do corpo docente das escolas de design é constituído por empresários de design que administram as aulas idealmente em regime de atelier, recrutando inclusive estagiários na escola, e que isso acontece desde há anos, é caso para suspeitar que a ideia de orientar a escola para o mercado falhou simplesmente porque não pára de ser aplicada.

        Ou as escolas fazem coisas que o mercado só por si não consegue fazer, ou o seu papel é nulo, apenas um compasso de espera até chegar ao mercado. Qual deveria ser o seu papel? O mercado só se interessa em ganhar dinheiro, com o mínimo de custos. Questões como a qualidade, a sociedade ou a ética ficam habitualmente de fora. Uma das funções das escolas deveria ser assegurar que quem entra no mercado entende alguma coisa disso.

  2. Acho que devíamos perguntar ao bispo que vai hoje mesmo dar uma conferência na EXD o que acha do assunto… Djazus!

  3. Bárbara diz:

    Eu acredito no design como força de mudança.
    Mas sei que para articular o design com as empresas e formar empresários na área do design é preciso que tanto os designers como os empresários/gestores sejam permeáveis à mudança.

    E como diz um amigo meu, toda a mudança é positiva.
    Sempre.

  4. É o discurso do poder dentro do poder. Nada de novo. O design é uma área muito recente e, também por isso, geradora de equívocos. O maior, como dizia à poucos dias Bonsiepe, é ser vítima do descrédito das outras áreas disciplinares, como a economia, a sociologia, etc, etc. É nesse reduto que teremos que actuar, ou seja, validar o discurso do design.
    Estas conversas não ajudam porque o design não deve nunca ser visto como solução (mais uma vez Bonsiepe) mas sim, como área estética e funcional relevante e responsável. O problema é que se ensina aos meninos que o design é forma/função, e os resultados desse discurso, meus caros, é este espectáculo televisivo… e o que vemos por aí.

    • zécas diz:

      Recente? Mais de 100 anos de história, mesmo em terras lusas conta à vontade com mais de 60 anos de actividade. Para retaliar o seu Bonsiepe posso dizer-lhe que para validar o seu discurso os designers também precisam de saber falar como os gestores (Borja Mozzota disse algo dentro desta linha numa conferência cá).
      O design não se pode fechar dentro de si e acima de tudo não dialogar com as outras áreas da actividade humana.
      Talvez seja porque sou um desses meninos que ainda acredita que o design deverá ter função.

  5. madalena pestana diz:

    Retiro destas intervenções as seguintes observações:
    continuamos a dar opiniões intuitivamente sem as fundamentar. Isso não ajuda o Design português. A discussão do design n é arte e tal…já era. Actualizem-se! Forma/função?? a mesma coisa…é pouco, já era, actualizem-se.

    Mário, fui tua aluna há já alguns anos e pude ver que o que dizes é fundamentado. Sempre. Que a crítica não é dizer mal mas dizer se houver algo de errado a dizer. Por isso sigo o teu blog com interesse.

    Em inglaterra (e não só) o design é pensado como um todo. A sua base teórica, os seus métodos, a sua relação com o mercado e a sociedade e sim, o papel ético e de interventivo ao nível social e económico. E isto não é feito à posteriori mas com visão. Por exemplo, em 2007 foi lançado Designing for the 21st Century (vol I e II) resultando de um intenso trabalho levado a cabo desde 2005 com intervenientes que provinham de diversas campos de saber, universidade e entidades. Seria possível fazermos algo semelhante? No imediato dúvido. Está tudo preocupado com o seu próprio atelier e visão estratégica há pouca. Mas começa a haver e começa-se a perceber a necessidade que há de delinear estratégias tanto os ateliers como as universidades (e também há hoje mais empresários mais atentos com os quais se consegue dialogar melhor).

    Em relação à necessidade de uma valorização da teoria do design tenho esperança que nesse processo de pensar o todo venha a ganhar o seu espaço. Sonhar e pensar como alcançar o sonho não é só tanga, exige pôr mãos há obra. E já há muito quem o faça. É preciso que se saiba.

    Fazer (executar) é preciso mas, sem um pensamento estruturado é impossível que se faça bem feito e com valor acrescentado. Não acham?

    Madalena Gagliardini Graça

    links de livros:
    Tom Inns, Designing for the 21st Century
    http://www.ashgate.com/default.aspx?page=641&calcTitle=1&pageSubject=295&title_id=10433&edition_id=12932

    Tim Brown, Change by Design: How Design Thinking Transforms Organizations and Inspires Innovation

    http://www.amazon.com/Change-Design-Transforms-Organizations-Innovation/dp/0061766089

  6. […] na carreirita. A coisa funciona tão bem que neste momento a quantidade de doutores em design já é um argumento para demonstrar por si só a excelência actual da área. Mas, para além do efeito estatístico, […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: