The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Tardia Pachecofília

Confesso que até há muito pouco tempo o culto à figura de Luiz Pacheco me deixava perplexo. Havia quem lhe chamasse libertino, mas ele pouco mais fazia nesse campo do que emprenhar empregadas domésticas e escrever sobre o assunto.

Havia quem o dissesse um Dandy e eu, por mais que tentasse, não percebia porquê, olhando para todas as suas fotografias e até uns tantos filmes, esforçando-me por ver o que havia naqueles óculos de massa de lente grossa, naquela boca meio aberta de desdentado precoce, naquela camisola de malha a deixar ver a cintura da camisa de flanela mal entalada, às vezes tudo aquilo coberto por uma samarra e mais tarde por um Kispo. O homem parecia-me sempre uma daquelas figuras que, ainda nos anos oitenta, eram anunciadas na televisão como tendo desaparecido de sua casa na tarde de Sábado, trajando um pijama às riscas e sofrendo de perturbações mentais.

O facto de ser mais ou menos Surrealista também não me comovia por aí além. Boa parte dos meus primeiros anos de faculdade foram passados a tentar esquecer o fascínio que os Surrealistas exercem sobre os adolescentes com pretensão a artista – muitos relógios a pingar desenhados a grafite.

Só agora com a crise é que percebi que podia haver outra maneira de olhar para o Surrealismo. Olhando para a vida de Pacheco como editor pelintra e crítico literário à beira da indigência, olhando para a vida de gente como o Alexandre O’Neill, presa a burocracias e censuras absurdas que era obrigada a tolerar, percebi que Surrealismo queria dizer algo que estava acima da realidade, que se opunha ao realismo, tanto no sentido de um movimento artístico, mas sobretudo de um quotidianozinho, de um pragmatismo e de uma austeridade moral que não é recente – a essa ideia que não há outro remédio senão ser realista.

Anúncios

Filed under: Burocracia, Crítica, Cultura, Economia, Não é bem design, mas..., Prontuário da Crise

3 Responses

  1. M. Folha diz:

    Por acaso não estava com o “Um Homem Dividido Vale Por Dois” numa das Open Talks? Ando há imenso tempo para comprar esse livro.

  2. […] tem dois rabiscos que o rasuram num S. Contra o realismo possidónio* dos tempos que correm, o surrealismo pelintra de Pacheco acaba por ser um dos melhores […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: