The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cadernos de Poesia

“Sonetos garantidos por dois anos

E é muito já, leitor que mos compraste”

Alexandre O’Neill, Soneto

É difícil responder com toda a certeza qual deverá ser o aspecto de um livro de poesia, mas os Cadernos de Poesia da Dom Quixote baralham-me um pouco as expectativas. O nome da colecção tem um ar escolar, pedagógico e terra-a-terra. É o elemento com mais destaque nas capas, a par com o número que nos assegura que aquilo faz parte de uma série. Tudo o resto, inclusive a foto do autor em alto contraste, quase tipográfica, é bastante mais discreto. Nada nos indica que se estão a publicar aqui pela primeira vez poesias importantes de autores mais ou menos consagrados. Cada um destes livros parece mais um guia de apoio à leitura do que literatura – é sinceramente despretensioso.

Na última página impar, impressa com mais gramagem, um anúncio com um cupão para cortar pelo picotado diz ao Caro Leitor que:

“Por uma importância que oscilará entre os 20$ e os 30$, poderá adquirir volumes relativamente pequenos quanto ao formato e ao número de páginas, mas importantes pelo seu conteúdo. Para tal, poderá fazer uma assinatura em moldes muito especiais:

– Não fará qualquer pagamento adiantado;

– Pagará cada número separadamente, pelo sistema de envio contra-reembolso, sem nenhum aumento de preço;

– Terá a garantia de adquirir todos os títulos que se publiquem, no exacto momento do respectivo lançamento.”

(Recortado o cupão, sobra uma tira de papel que misteriosamente nos assinala:

“O despertar de uma consciência

A génese de uma revolta

Leia:

A MINHA ALMA NÂO ESTÁ À VENDA”)

Este peculiar modelo de distribuição permite cativar um público que talvez não tenha dinheiro para pagar uma assinatura de uma só vez, dando-lhe a possibilidade de comprar os livros um a um, embora sob compromisso – e, no caso da colecção acabar, ninguém fica a perder.

É mais um exemplo de um modo de distribuição que corresponde a uma economia distinta da nossa, onde as pessoas preferiam comprar os objectos e as colecções às partes (mas pagando-as a pronto) e os próprios editores preferiam receber o dinheiro de uma assinatura a cada número, em vez de aceitarem dinheiro por edições futuras que poderiam não conseguir assegurar.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Prontuário da Crise, Publicações

One Response

  1. Como a difusão de conteúdos passa hoje essencialmente pela web, imagino que os equivalentes modernos da pelintragem dos fascículos e das obras às prestações se encontre por esses pontos de acesso gratuitos à mesma (bibliotecas, mc donalds e estações de metro) =)

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