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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A importância da teoria no design


Antes de começar, convém lembrar que escrever sobre este assunto é inútil. Literalmente inútil. Acreditar que, dentro do campo do design (ou em outro qualquer), se podem defender pontos de vista simplesmente escrevendo sobre eles é algo que, para muita gente, já é teoria q.b. (não é)[1]. Para essas pessoas, um argumento que não passe pela simples prática será sempre inútil, uma petição de princípio[2] pela qual, para acreditar na importância da teoria no design, se tem que começar por acreditar na importância da teoria no design (quem acreditar na teoria não precisa de ser convencido; quem acreditar na prática, dificilmente acreditará em argumentos teóricos). O que é o mesmo que dizer que, para discordar da importância da teoria no design, basta continuar como se está (a fazer coisas práticas, sejam elas o que forem), enquanto que, para concordar com ela, será necessário continuar com este texto – no meu caso, escrevendo-o, no caso do leitor, lendo-o (em qualquer uma das alternativas, daria menos trabalho acreditar no oposto).

Pelo contrário, argumentar que a teoria é uma coisa importante exige pelo menos o dobro do trabalho e o dobro da competência: não basta fazer design mas também escrever sobre ele, ler sobre ele e conseguir apreciar a qualidade da argumentação usada numa discussão sobre design. São tarefas cansativas que implicam discutir com pelo menos mais duas pessoas para além da habitual figura do cliente: o público e os nossos colegas. O público, como é sabido, não quer saber do design, e argumentar o contrário ainda é mais difícil do que convencer um pragmático da importância da teoria. Quanto aos colegas, boa parte deles acredita que para fazer design basta simplesmente fazê-lo, e, do mesmo modo que não gostam que haja colegas a fazer concorrência desleal, oferecendo serviços por metade do preço, também não gostam que se dê a entender que há designers que fazem o triplo do serviço – fazer, pensar e escrever sobre isso – pelo mesmo preço, colocando-os numa posição em que são eles a fazerem a concorrência desleal.

Em todo o caso, e quanto mais não fosse pela quantidade de trabalho envolvido, a distinção entre teoria e prática nem deveria sequer fazer sentido: fazer e pensar sobre o que se faz não deveriam ser dois momentos isolados, nem se deveria encorajar as pessoas a pensar desse modo. Infelizmente, é assim que os cursos de design se organizam, com as suas cadeiras de projecto onde o aluno aprende a fazer “realmente” design, rodeadas das outras, onde ele é obrigado a “perder tempo”, estudando coisas tão diversas como história, estética, sociologia, etc. Muita gente acredita que este conhecimento é inútil, ou pelo menos acessório, e que um curso deveria ser o mais prático possível, assumindo que a teoria é apenas uma especialização, reservada a quem quer fazer mestrados ou doutoramentos. No entanto, esta crença contradiz a própria ideia de um curso superior do design. Aquilo que faz do design uma disciplina académica é a consciência de que não basta aprender as coisas na prática profissional – como um aprendiz numa gráfica, por exemplo – para ser um designer. Não deixa de ser curioso que muitos dos velhos tipógrafos reivindicassem uma formação superior fora das oficinas e que, agora que o design é ensinado em universidades, se defenda um ensino profissionalizante, ensinado nos ateliers, através de estágios. Dantes defendia-se o ensino para resolver o problema dos estágios; agora defendem-se os estágios para resolver o problema do ensino.

Ou seja, mesmo que se acredite que a teoria é uma mera formalidade, um pendericalho que só serve para justificar a existência do design enquanto disciplina académica, ainda assim a teoria continua a ser uma das condições que permitem ao design ser uma disciplina. Agora: pode-se levá-la a sério, já que ela é essencial, ou então pode-se defender que um curso de design seria melhor com pouca ou nenhuma teoria – Paula Scher fê-lo – mas então para quê ensiná-lo numa universidade? Porque uma disciplina académica não é apenas um prática profissional, mas também um certo discurso, uma certa  história, que não são coisas pacíficas, nem imutáveis. Esse discurso sobre a prática é, mesmo na sua expressão mais diluída, um grau zero de teoria. De certa maneira, é a existência de uma prática e de uma teoria distintas mas complementares que fazem de qualquer actividade uma disciplina, um corpo de saber.

Tudo isto pode parecer abstracto e distante, mas apenas a quem não percebe o papel de uma universidade. Muitos designers acreditam que o bom design (o seu) é indiscutível. O cliente deveria aceitá-lo apenas só porque lho mostram, mas as coisas só raramente funcionam deste modo. É preciso falar sobre o trabalho, é preciso negociá-lo, é preciso argumentá-lo, com pessoas que percebem muito pouco de design – e nem precisam, tendo em conta que não são designers, nem querem ser. Do mesmo modo, o próprio design, se tem realmente a importância que diz ter, é uma disciplina constantemente discutida, negociada, argumentada, não apenas por designers, mas por clientes, público, políticos, legisladores, etc. Aquilo que se costuma chamar “teoria” num curso de design fornece as ferramentas que permitem a um designer ocupar o seu lugar na sociedade, que não está garantido, mas depende da qualidade da argumentação dos seus praticantes. Infelizmente, essa defesa tem-se feito mais do lado da criação de normas e de instituições, acreditando que, se a lei disser que o design é importante, só por isso ele será importante, sem ser preciso mais nada. Porém, uma lei só parecerá justa se a sua importância social mais alargada puder ser justificada.

De um modo bastante patético e sem dúvida arrogante, muitos designers que não acreditam na importância da teoria acreditam que a teoria deveria acreditar neles. Desprezando a crítica, a história, a estética e a ética,[3] acreditam que ainda assim o seu trabalho deveria ser admirado. Mas, se desprezam a teoria, um pensar distinto do simples fazer, que o complexifica e integra socialmente, é bastante provável que não percebam o que é realmente o design: a própria palavra, no sentido de “projecto”, sugere uma prática sujeita ao pensamento, ao planeamento – uma prática que se exerce melhor pensando. Infelizmente, muito design tem uma vertente anti-intelectual bastante marcada.

Pode-se argumentar que o conhecimento teórico não é essencial à prática do design e que há designers bem sucedidos que exercem a sua profissão sem o usarem sequer. Porém, a própria noção de sucesso é ambígua: se o seu trabalho é admirado por outros designers e usado como exemplo em conferências ou escolas é porque alguém se dá ao trabalho de dar conferências ou aulas, actividades que transcendem a prática profissional mais básica. Se um designer é bem sucedido sem usar a teoria é porque outros o fazem por ele. De resto, muitos dos designers e tipógrafos mais conhecidos alcançaram a sua fama por não se limitarem à simples prática, escrevendo, ensinando e de um modo mais ou menos explícito não estando satisfeitos com a simples prática, ultrapassando o conservadorismo complacente e preguiçoso de quem se assume como um pragmático. Como dizia o outro: o pragmatismo é o oposto da esperança.

(Texto originalmente publicado no catálogo do Close-Up)

[1] Como é evidente, não basta uma coisa estar escrita para ser teoria ou sequer ser interessante ou verdadeiro, do mesmo modo que não basta uma coisa ser prática para ter qualidade.

[2] O que é uma petição de princípio? Trabalho de casa.

[3] Neste último caso, quem não conhece e respeita a ética enquanto teoria terá bastante dificuldade a acreditar ou mesmo a praticar a ética na “vida real”, em particular num país como Portugal, onde a lei (a autoridade do Estado e das instituições) é regularmente mais respeitada do que a ética.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

3 Responses

  1. Humberto diz:

    Excelente texto, muito pertinente.

    Obrigado,

    Humberto

  2. Humberto diz:

    Se o próprio Design é uma materialização visual de uma linha de pensamento, a teoria é o sustento que o comporta, como tal não creio que a mesma deve ser de todo dissociada do acto operacional ou prático da peça ou peças graficas.

    A consciência determina desta forma a razão da propria existencia da peça. O desenvolver de um logo, por exemplo, assenta numa base intelectual de reflexão definida por objectivos a atingir delineados por varios factores que vão desde o publico alvo a comunicar à importancia que o conceito (ou conceitos) tem para com esse publico, quais os valores e porquê. Sendo assim a ideia – que só existe como fruto dessa reflexão – ainda antes de passar ao brainstorming já se encontra definida de acordo com esses factores.

    No brainstorming a reflexão toma forma, delinea se.

    Sendo assim falar de design é tão importante como faze lo porque na verdade não são realidades distintas. São a mesma.

  3. Ricardo diz:

    Design sem ‘teoria’ nem sequer o é. A intenção é a teoria (com mais ou menos profundidade). Creio que na teoria que se ensina falta (ou faltava) abrangência. Falta a parte das expectativas, da interligação ou coerência das mensagens, dos posicionamentos,… acho que ajudava muito a quem quer (sobre)viver dele.

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