The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Injustificado

Sobre o possível papel do design numa crise –  ou mais exactamente numa hora de desespero económico, político e moral –, há um texto ao qual tenho regressado uma e outra vez, Unjustified Text and the Zero Hour, de Robin Kinross. Um aviso: não parece ser imediatamente útil; não apresenta nada que se pareça sequer com uma solução; nada de motores do desenvolvimento ou de valorização de exportações, nada de chavões, apenas uma estranha e vibrante melancolia.

Foi escrito há pouco menos de vinte anos, para ser lido num ciclo de conferências sobre o papel do design na reconstrução europeia do pós-guerra e relaciona o texto alinhado à esquerda, injustificado, com a Hora Zero, aquele momento em que a Alemanha depois da sua derrota na Segunda Grande Guerra estava em ruínas, corpos espalhados pelas estradas, grupos de bandidos e foragidos matando e pilhando as famílias de desalojados que tinham a desgraça de os encontrar.

A relação entre um modo de alinhar um texto e uma calamidade parece pueril, o tipo de gafe que só um designer poderia fazer, falando de fontes a meio de uma catástrofe humanitária, por exemplo, mas o argumento de Kinross é subtil e resiste a um resumo apressado. Assenta em grande medida num excerto do livro Minima Moralia de Theodor Adorno, escrito quando este era um exilado de guerra em Los Angeles e tendo como subtítulo na edição inglesa “Reflections from damaged life”.

Adorno invoca a peça musical Histoire du Soldat que Stravinsky compôs no final da primeira grande guerra (“que como todas as guerras parecia pacífica comparada com a seguinte”) para ser interpretada por uma parca e traumatizada orquestra. Para ele, o pré-requisito do que seria a melhor peça do compositor era a pobreza, acrescentando que “desmantelava tão drasticamente a cultura oficial porque, sendo-lhe negado o acesso aos bens materiais desta última, também evitava a ostentação que é inimiga da cultura”, e que este deveria ser um exemplo a seguir pela produção cultural do pós-guerra, uma época marcada pela pior das destruições, onde o:

“progresso e a barbárie estão de tal modo casados na cultura de massas que apenas um barbarismo ascético em relação a esta última, e em relação ao progresso no sentido técnico, pode restaurar uma condição não-barbárica. Nenhuma obra de arte, nenhum pensamento, tem qualquer hipótese de sobreviver, a menos que contenha uma rejeição das falsas riquezas e da produção luxuosa, dos filmes a cor e da televisão, revistas de milionários e Toscanini. Os velhos media, que não foram concebidos para a produção em massa, ganham assim uma nova intemporalidade: a da isenção e da improvisação. Só eles podem flanquear a frente unida das corporações e da tecnologia. Num mundo onde os livros perderam há muito toda a semelhança com os livros, o verdadeiro livro já não pode ser um. Se a invenção da imprensa inaugurou a era burguesa, é agora o tempo desta ser encerrada pelo mimeógrafo, o único meio de disseminação adequado e discreto.”

Kinross especula que, para imprimir um texto desta natureza na Los Angeles de 1944, só através das tecnologias de reprodução de escritório, compostas com a ajuda de uma máquina de escrever, na qual o texto seria certamente injustificado. Embora este formato seja associado à adaptação mais eficiente da tipografia à composição mecânica, na época já era igualmente rápido e fácil compor um texto justificado – seria este um dos argumentos usados por Tschichold na sua famosa polémica com Max Bill, onde dava a entender que o alinhamento à esquerda era mais uma afectação modernista que uma necessidade. Kinross acredita, mais subtilmente, que a popularidade modernista do alinhamento à esquerda não tem a sua origem nas gráficas mas na familiaridade crescente das publicações compostas nas humildes máquinas de escrever. O texto não-justificado seria uma evocação desta urgência que desafia as convenções de uma edição “a sério”, produzida em grandes tiragens numa gráfica, com uma grande estrutura editorial e com distribuição adequada. A própria expressão “unjustified” evocaria este lado improvisado e anárquico.

Actualmente, numa época de crise profunda em que a austeridade imposta em nome da sustentabilidade económica de um sistema financeiro e político que parece cada vez mais desligado das pessoas, ainda espanta que para fazer um publicação, ainda se pense em questões de legitimidade, de recepção crítica, de divulgação e de distribuição: ou seja de fazer livros (ou revistas) que para se parecerem com livros e revistas têm que satisfazer todo um ror de requisitos e de obrigações que os deixam, finalmente, como objectos comprometidos e inúteis.

Anúncios

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Prontuário da Crise, Publicações, Tipografia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Comentários Recentes

Lia Ferreira em Por um lado
Jose Mateus em Censura em Serralves
L. em Lisboa Cidade Triste e Al…
Mário Moura em Livro
João Sobral em Livro

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: