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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Paper Tigers

Actualmente, no mundo académico das artes e do design há uma febre do paper, cuja origem é a obrigação de publicar uns tantos deles por ano para trepar na carreirita. A coisa funciona tão bem que neste momento a quantidade de doutores em design já é um argumento para demonstrar por si só a excelência actual da área. Mas, para além do efeito estatístico, qual é a influência disto tudo na sociedade?

No caso das artes, por exemplo, não deixa de ser curioso que, precisamente numa altura em que se multiplicam as pós-graduações e as apresentações de papers, as revistas de arte tenham desaparecido, assim como boa parte da crítica em jornais, reduzida a umas tantas linhas. Tornou-se habitual ouvir artistas a queixarem-se que a crítica não fala sobre eles, mas como poderia falar? Se um semanário ou um suplemento semanal fizerem duas recensões por semana, durante um ano cobrirão 104 exposições, o que é uma parcela ínfima do total no mesmo espaço de tempo.

Mas se a crítica é considerada – por consenso quase universal – insuficiente, o que espanta é que, na tal era da investigação académica das artes, não haja mais gente a propor modelos alternativos de crítica, tanto na internet como sobre papel. Muitas das publicações de referência do mundo das artes surgiram por oposição a ausências ou defeitos na crítica existente – Art Forum, October, etc. Porque não acontece o mesmo em Portugal?

A verdade é que muito do mundo da arte se desenrola agora num percurso que praticamente exclui a necessidade da crítica como discurso legitimador: bienais, residências, bolsas ou graduações – e onde a existência de um discurso escrito ou conferenciado serve sobretudo como um mix de pré-requisito burocrático com acção de relações públicas.

Infelizmente, muitos destes textos, sejam eles papers, folhas de sala ou introduções de catálogo acabam por ter um alcance reduzidíssimo. A sua função não é propriamente polémica; não são feitos à espera de diálogo ou sequer de resposta.

Este género de isolamento não se limita à investigação em artes. O Nobel da economia Paul Krugman, por exemplo, desmistifica a ideia que agora qualquer um pode mandar bitaites num blogue enquanto nos bons velhos tempos tinha que se publicar tudo em journals, depois de revisto e aprovado por um júri dos pares. Pelo contrário, uma ideia, mesmo que relativamente académica, só era publicada num journal depois de  andar a circular numa variedade de formatos mais informais e pragmáticos. Por vezes, assegura Krugman, literaturas inteiras floresciam e definhavam antes do primeiro artigo ter sido publicado. E acrescenta: “Os journals servem há muito de lápides, certificações para comités de contratação definitiva, mais do que um fórum onde ideias são discutidas.”

Para Krugman – e eu, como é evidente, concordo – os blogues vieram abrir o processo, em parte porque:

the fact that it’s easier for people with less formal credentials to get heard means that people who have those credentials are less guaranteed of respectful treatment. So yes, we’ve seen some famous names run into firestorms of criticism — *justified* criticism – even as some “nobodies” become players. That’s a good thing! Famous economists have been saying foolish things forever; now they get called on it.

And this process has showed what things are really like. If some famous economists seem to be showing themselves intellectually naked, it’s not really a change in their wardrobe, it’s the fact that it’s easier than it used to be for little boys to get a word in.

As you can see, I think this is all positive. The econoblogosphere makes it a lot harder for economists to shout down other people by pulling rank — although some of them still try — but that’s a good thing.

Contrariamente, pelas artes e pelo design português, em plena era dos Facebooks e dos Blogues, o discurso crítico limita-se, em grande medida e como já vimos, à esfera académica, negligenciando quase sempre um debate público mais alargado. Essa negligência traduz-se numa falta de prática gritante para defender a própria importância das artes ou do design na sociedade portuguesa que será sem dúvida ainda mais trágica durante esta crise.

Filed under: Arte, Burocracia, Crítica, Cultura, Design

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