The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Manual de etiqueta para banqueiros

Há alguns textos atrás referi um ditado que ouvi num filme de Michael Powell e Emeric Pressburger. Trata-se de I Know Where I’m Going, de 1945. Na cena em questão um grupo de camponeses e trabalhadores comenta os excêntricos gastos de um milionário que tinha alugado a ilha de Kiloran para o seu casamento: construiu uma piscina em vez de nadar no mar; mandava vir salmão de Londres em vez de o pescar nos ribeiros. O dono da ilha, um jovem aristocrata rural empobrecido, sugeriu-lhes que pelo menos “um tostão gasto é um tostão ganho por outra pessoa”, ao que todos assentiram.

A cena passa-se na Escócia durante os anos da Segunda Grande Guerra, um país associado habitualmente à forretice – é a terra do Tio Patinhas e de Adam Smith – mas demonstra uma sabedoria popular um pouco diferente da nossa. Poderia confundir-se com uma defesa da riqueza, a ideia de que protegendo os ricos estes acabarão por gastar o seu dinheiro, distribuindo-o (as trickledown economics), porém o tom da cena é de perplexidade pelo lado dos camponeses e de tolerância diplomática por parte do jovem dono da ilha – são todos pobres numa época pobre e portanto obrigados a sujeitarem-se à situação.

A história central do filme é a de uma jovem ambiciosa que pretende casar com o tal milionário, uma figura que nunca chega a ser realmente vista, apenas os seus bens, funcionários e recursos.* A sua riqueza vem da indústria e presume-se, por contraste com o jovem aristocrata rural pelo qual a heroína se apaixonaria, que o seu dinheiro não é antigo. Também não vem da especulação financeira. Isso é indicado pela profissão do pai da rapariga, um gestor bancário no topo das hierarquias (não me lembro do cargo). Para mostrar como a sociedade mudou desde então basta ver a cena onde a filha convence o pai a jantar com ela num restaurante de luxo e ele fica receoso que algum dos seus clientes o veja assim a gastar dinheiro.

A cena lembra bem outras do filme Stagecoach de John Ford (1939), uma referência que apanhei mais uma vez através do blog de Paul Krugman, onde um banqueiro que fugia às escondidas com o dinheiro dos seus clientes se dedicava a aconselhar a poupança e a austeridade a quem o quisesse ouvir. A dada altura dizia:

I don’t know what the government is coming to. Instead of protecting businessmen, it pokes its nose into business! Why, they’re even talking now about having *bank* examiners. As if we bankers don’t know how to run our own banks! Why, at home I have a letter from a popinjay official saying they were going to inspect my books.

I have a slogan that should be blazoned on every newspaper in this country: America for the Americans! The government must not interfere with business! Reduce taxes! Our national debt is something shocking. Over one billion dollars a year! What this country needs is a businessman for president!

Era nitidamente um homem à frente do seu tempo.

*Num sonho, a jovem celebra o casamento não com o industrial mas com a própria empresa.

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Filed under: Economia, Política, Prontuário da Crise

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