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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A ética democrática em Thoreau

De acordo com a data e o preço em escudos nos bilhetes de autocarro guardados lá dentro já não lia o Civil Disobedience de Henry David Thoreau pelo menos desde 1998. Confesso que quando o recomecei a ler, as primeiras frases me desiludiram, ao argumentarem que o melhor Governo é aquele que não governa de todo.

Quando as li pela primeira vez ainda não tinha conhecimento da obsessão americana pelo desmantelamento do Estado, da privatização de serviços, etc. Interpretei-as como uma espécie de anarquismo, mas agora pareciam-me erradas, apesar de não deixar de simpatizar com coisas como “government never of itself furthered any enterprise, but by the alacrity with which it got out of the way.”

Mas felizmente as ideias de Thoreau não são as de um mero neoliberal: ele própria afirma que não é um desses homens do não-governo; não quer deixar de ter imediatamente um governo, mas ter imediatamente um governo melhor. Para isso, ele insiste que um governo em que a maioria decide em todos os casos não pode ser justo. Pode parecer uma afirmação anti-democrática, mas é daquelas coisas óbvias das quais nos vamos regularmente esquecendo: numa democracia eficaz não é tão importante a quantidade de votos como as identidades que são representadas no debate público. Não adianta votar num partido que ganha se ele não representa os nossos interesses. Mais vale dar uma hipótese de representação a um partido pequeno que pode representar melhor os nossos interesses, mantendo-os vivos no debate público.

Thoreau acrescenta mais outra questão que é talvez ainda mais importante: é a maioria que dita a lei, mas se a lei for aplicada sem consciência será necessariamente injusta. Segundo ele, seria mais importante ter um respeito pela ética do que pela lei (“Law never made men a whit more just; and, by means of their respect for it, even the well-disposed are daily made the agents of injustice.”) Já falei disto em outras ocasiões, mas é uma ideia que vale a pena repetir, sobretudo em Portugal onde a lei, ou seja a intervenção do Estado em todas as esferas da vida privada é considerada mais realista que a ética ou o simples civismo – esta presença burocrática e asfixiante acaba por servir como argumento à privatização de serviços e recursos como única maneira de os tornar menos pesados e invasivos, mas trata-se apenas de uma ambiguidade linguística: defender a privacidade não é o mesmo que defender a privatização; a primeira diz respeito a indivíduos enquanto a segunda diz respeito a instituições. E, tal como lembra Thoreau, não se pode dizer que uma instituição tenha consciência, mas uma instituição de pessoas conscienciosas será consciente.

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Filed under: Ética, Burocracia, Crítica, Cultura, Política

One Response

  1. Nuno diz:

    A visão do Estado do Thoreau, pensada há mais de 150 anos, tem muita da ingenuidade e idealismo que ao mesmo tempo enriquece e enfraquece o alcance do seu trabalho.

    A questão do Estado para a sua forma particular de activismo, que culmina na fuga aos impostos, tem uma afinidade bastante ténue com o histrionismo anti-estado a que assistimos hoje.
    Para Thoreau havia uma questão ética no seu cepticismo em relação ao Estado: era para ele central o abolicionismo e por isso recusava-se a pagar impostos a um Estado que apoiasse o esclavagismo.

    Das várias formas de resistência passiva que advogou, provavelmente é a mais radical, embora não a mais famosa.

    http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_tax_resistance

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