The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cesuras e Censuras, Recortes e Rasuras

Há livros que nos obrigam a reavaliar tudo o que já lemos de um autor e o veredicto acaba por não ser positivo. Tree of Codes, que Jonathan Safran Foer produziu para a Visual Editions, é uma dessas obras que nos fazem, de um momento para o outro, mudar de ideias.

Eu já tinha lido (e gostado) de Extremely Loud & Incredibly Close, a história de como um rapazito nova-iorquino lidava com a morte do pai nas Torres Gémeas através de uma complexa caça ao tesouro a todo o comprimento da ilha de Manhattan, que o levaria a descobrir (entre outras coisas) o seu avô perdido, um sobrevivente dos bombardeamentos de Dresden. Era um livro inventivo que usava desenhos, fotografias e arranjos tipográficos para contar a sua história de um modo complexo que acabava sempre por nos surpreender.

Tree of Codes parecia à primeira vista igualmente experimental: uma história contada através do recorte de um outro livro, construida a partir das palavras que ficaram. O efeito é bonito, com aberturas que, a cada página, nos permitem ver pedaços das seguintes, fazendo e desfazendo formações de aspecto sedimentar, mostrando-nos pedaços do futuro.

Mas tornou-se impossível para mim continuar a lê-lo depois de ficar a saber pela nota final que o livro recortado foi escrito por Bruno Schultz, um judeu austro-húngaro morto durante a Segunda Grande Guerra. Começou-me a parecer que recortar ainda mais a obra de alguém cuja maioria da obra sofreu a pior das censuras, tendo desaparecido irremediavelmente, é uma homenagem de gosto duvidoso.

Em alguns casos, ao representar-se graficamente a censura reencena-se graficamente os seus processos, simulando o lápis azul, o marcador negro, os espaços em branco – é um lugar comum que se distingue da verdadeira censura por tornar visível e público um conjunto de processos que não o são. Porém no caso de Foer, não se trata de pôr a nu um processo secreto, mas de usar uma forma de rasura para tomar posse efectiva da obra de um outro autor. Se o resultado é poético, essa poesia não pode ser indiferente ao facto de obtida mutilando o que sobreviveu de uma obra mutilada.

Tendo essa consciência já não me é possível apreciar também certos pormenores de Extremely Loud & Incredibly Close – como o flip book final construído a partir de fotogramas da queda de uma das vítimas do World Trade Center, que neste momento me parece mais um aproveitamento desastrado e gratuito de uma tragédia real.

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Filed under: Apropriação, Autoria, censura, Crítica, Cultura, Design, Publicações

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