The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Também há designers na Rua dos Douradores

(via)

Sim, é literalmente verdade: conheço uns tantos que lá vivem ou têm lá os seus estúdios, mesmo ao lado dos restaurantes onde Fernando Pessoa almoçava, que hoje alternam com comida indiana e postos de aluguer de Segways, mas – para quem não conheça – o sentido do título será mais óbvio lendo o seguinte texto, um dos mais famosos do Livro do Desassossego e que poderia ser uma espécie de Teoria Geral da Cultura Pobre:

Quem tenha lido as páginas deste livro, que estão antes desta, terá sem dúvida formado a ideia de que sou um sonhador. Ter-se-ia enganado se a formou. Para ser sonhador falta-me dinheiro.

As grandes melancolias, as tristezas cheias de tédio, não podem existir senão com um ambiente de conforto e sóbrio luxo. Por isso o ‘Egeus’ de Poe, concentrado horas e horas numa absorção doentia, o faz num castelo antigo, ancestral, onde, para além das portas da grande sala onde jaz a vida, mordomos invisíveis administram a casa e a comida.
O grande sonho requer certas circunstâncias sociais. Um dia que, embevecido por certo movimento rítmico e dolente do que escrevera, me recordei de Chateaubriand, não tardou que me lembrasse de que eu não era visconde, nem sequer bretão. Outra vez que julguei sentir, no sentido do que dissera, uma semelhança com Rousseau, não tardou, também, que me ocorresse que, não (tendo) tido o privilégio de ser fidalgo e castelão, também o não tivera de ser suíço e vagabundo.
Mas, enfim, também há universo na Rua dos Douradores. Também aqui Deus concede que não falte o enigma de viver. E por isso, se são pobres, como a paisagem de carroças e caixotes, os sonhos que consigo extrair de entre as rodas e as tábuas, ainda assim são para mim o que tenho, e o que posso ter.
Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar sobre a cidade se pode pensar o infinito. Um infinito com armazéns em baixo, é certo, mas com estrelas ao fim… É o que me ocorre, neste acabar de tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser.


Filed under: Não é bem design, mas..., Prontuário da Crise

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