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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ideologia? Mas qual ideologia?

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Já quando Vítor Gaspar justificou o corte de cerca de 14% dos vencimentos de boa parte dos funcionários públicos se tinha saído com um argumento curioso: que fazia sentido porque tinham um emprego mais seguro, com salários mais elevados que a média, mas que, de qualquer modo, era isso ou o despedimento em massa – o que revela bem o pouco que vale a tal segurança.

Entretanto, já muita gente recordou que os salários da função pública só são mais elevados que a média nos escalões mais baixos, um pormenor que esta medida é bem capaz de só por si corrigir.

No entanto, ainda sobra aquela coisa do monstro, do peso da função pública na economia, mas segundo aqueles chatos da OCDE – que insistem naquela coisa das estatísticas e que não percebem que a realidade lusa não tem nada a ver com isso – até nem estamos assim tão mal: bastante abaixo da média, de facto (quando forem grandes, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Irlanda, a França ou a Finlândia até gostavam de ser como nós). Infelizmente, a Alemanha ainda nos pode dar dicas nessa área. Tal como a Grécia.

O mesmo relatório também acrescenta que houve nos últimos anos um grande esforço de consolidação orçamental que só descarrilou graças ao aumento da despesa pública devido à crise (pormenores no link da imagem).

Mas pronto, contra os argumentos do costume não há factos que resistam, e lá veio Passos a dizer que não, que a traulitada tinha que ser mesmo na função pública; se fosse igual para todos, acabava-se já a ajuda externa porque a economia ia abaixo ou coisa do género – portanto, não, não é a função pública, nem a ex-classe média ou os reformados que vão pagar a crise.

(Um dia ainda há-de aparecer um graficozito da OCDE a elucidar que a única coisa monstruosa por aqui é a tendência nacional para a treta.)

Filed under: Crítica, Economia, Política, Prontuário da Crise

8 Responses

  1. rma diz:

    Quanto ao gráfico, seria preciso ver/entender isso no seu contexto, já que as realidades de todos esses países são distintas.
    Agora não é nenhuma mentira que muitos funcionários públicos (provavelmente, não em todos os escalões) ganham mais do que o equivalente privado e que essa medida vai corrigir isso, o que é muito bom. Nem seria muito sensato que ganhassem o mesmo ou mais, já que estão a ser subsidiados por um país pobre. Já no caso de uma empresa privada, só ‘contribui’ para a sua existência e prosperidade quem quer e acha justo, e a distribuição de riqueza no interior dessa empresa já depende dos seus próprios critérios, justos ou não.

    No privado, as grandes empresas iriam de facto despedir em massa e as médias/pequenas nem poderiam deixar chegar a esse extremo e iriam efectuando cortes sucessivos. Aliás, isso acontece todos os dias.
    No estado, por um motivo ou outro, essa segurança (por comparação ao privado) sempre vai existindo e é um facto. Contudo, se é assim tão mau e injusto trabalhar no estado, estas medidas deviam é estimular todas as pessoas que lhe são sujeitas, a procurar/criar emprego no maravilhoso e justo sector privado.

  2. O contexto do gráfico é bastante simples: permite comparar a percentagem de trabalhadores que em vários países trabalham na função pública.

    Curiosamente, quando aparece um gráfico que contradiz as ideias feitas do costume (porque toda a gente sabe que há demasiada função pública em Portugal e que anda a crescer, apesar de praticamente não haver contratações e muitos serviços estarem a esvaziar ou a secar) diz-se logo que a nossa realidade não é assim.

    Se não é possível comparar o tamanho da função pública em vários países, então não é possível dizer que temos muita ou pouca. Se o objectivo é apenas compararmos com a nossa própria realidade, o gráfico também diz que está a descer.

    Na parte da função pública que conheço melhor, o ensino superior, é perfeitamente possível encontrar gente a fazer 35 horas por semana (com hora de entrada e saída controlada) pela módica quantia de 500 euros. Boa parte dos professores universitários que tenham a nova carreira e sejam contratados a menos de 50% podem receber tão pouco como 200 euros por cadeira (talvez menos). E boa percentagem deste dinheiro vai directamente para impostos sem sequer ser visto.

    É claro que dentro da lógica nacional, quando se tem uma injustiça nítida nos salários do privado, onde se põe regularmente as pessoas a trabalharem de graça e a justiça cada vez mais relativa da função pública, onde se ganha pouco acima disso, a ideia será sempre corrigir a injustiça, somando-lhe outra.

  3. (e de qualquer modo, tendo em conta que os salários mais altos do privado são mais altos que na função pública e pagam menos impostos, e que os lucros não têm sido assim tão maus, e também pagam relativamente poucos impostos, caso contrário fogem para paraísos fiscais, e se fugirem têm direito a uma amnistia para voltarem (supostamente para pagarem os tais impostos que os fizeram fugir), e apesar disso as maiores empresas ainda pagam salários de base miseráveis, é bastante evidente que é justo que se martele a função pública, porque é dela a culpa disto tudo.)

  4. Kawazaki John Wayne diz:

    sim também existe um gráfico que diz que estamos no top 3 europeu do nº de horas que trabalhamos mas, quando comparamos nº horas vs produtividade percebe-se facilmente que estamos lá a fazer pouco ou nada (sim, isto é uma alusão aos 30 minutos extra de trabalho que não vão mudar nada)

  5. O problema em Portugal não é os salários dos FP serem altos em relação aos privados, mas sim que os salários dos privados são muito baixos em relação à realidade do mundo no ano de 2011…

  6. Kawazaki John Wayne diz:

    take the red pill

  7. Kawazaki John Wayne diz:

    ó mário também aí no público andam gajos e gajas a ganhar fortunas para fingir que fazem alguma coisa, esse discurso do pobrezinhos de nós que somos vítimas do capitalismo neoliberal selvagem também já cansa. olha lá, os joves não andem todos a imigrar para esses tais dos paises neoliberais onde se enxovalham os direitos dos trabalhadores e bla bla? onde funciona a justiça e os hospitais e as escolinhas. eh pá portugal não pode ser o eldorado de querer ter tudo sem se prescindir de nada. mas vivemos em alguma república soviete sem eu saber?

    • Há maus funcionários públicos portanto acaba-se com a função pública; há maus artistas, acaba-se com a arte; há maus políticos, acaba-se com a política; há maus sapateiros, acaba-se com os sapatos; etc. É suposto isto ser um bom argumento?

      Quanto à emigração para os países neo-liberais tipo a Inglaterra ou os Estados Unidos? consultem o gráfico, na verdade até têm mais estado do que nós, logo se calhar até são menos neo-liberais.

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