The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uma Ordem Profissional Há Muito Sonhada

O surrealismo tem destas coisas: quando se fala de novo da Ordem dos Designers, apanhei por mero acidente um texto de Alexandre O’Neill, recolhido no livro de 1980, Uma Coisa em Forma de Assim, onde o poeta enfrentava num pesadelo – é esse o nome da peça – alguns arquitectos, seguidos de um decorador de interiores, e onde a questão das ordens está claramente presente. Aqui ficam uns excertos só para dar uma ideia:

Arquitectos meteram-me o cotovelo no estômago e depois trancaram-me na casa de um deles. “Talvez estes sejam arquitectos por fora e o que eu precisava agora era de arquitectos por dentro. Quem sabe se, à falta de melhor, um decorador não resolverá a minha situação?”. Pedi às amarelas um decorador e telefonei-lhe com a voz que consegui arrancar daquele espaço e da sensação do cotovelo no estômago. O decorador foi amabilíssimo. Deu-me um conselho de emergência:

– Deite-se no chão ao comprido e não se mexa até eu chegar – Assim fiz. Poucos minutos depois bateram à porta, mas como ela estava fechada por fora eu não consegui abri-la ao decorador.

– De que se queixa, mais particularmente? –, perguntou-me ele através do buraco da fechadura.

– O que mais me aflige é não poder abrir de par em par a janela. A parede fronteira à janela não o consente.

– Abra o que puder!

[…]

– Quem eram os que o fecharam aí dentro?

– Arquitectos.

– E para onde foram eles?

– Percebi pela conversa deles que iam para o Algarve.

O decorador começou a meditar, ora num pé ora noutro, como era fácil perceber pelo rangido dos sapatos.

[…]

Quando falou novamente a sua voz era desalentada:

– Há uma impossibilidade legal. É que eu não sou arquitecto, sou decorador. Se faço qualquer coisa por si podem tirar-me a licença de trabalho e vir-me com a justiça para cima.

– Ó homem, e você, numa situação destas, ainda está a pensar na licença de trabalho?! –, exclamei aterrado.

– E você, no meu caso, não pensava, não?

[…]

Uma hora depois, três pancadinhas cúmplices na porta. Levantei-me:

– Então?

– Demorei um pouco mais do que previa –, disse o decorador. – Aqui está o que pude arranjar.

Por debaixo da porta, o decorador passou-me, sucessivamente, cada uma das três partes de uma sanduíche de fiambre em pão de forma aparado, uma Guernica de Picasso e outro extintor de bolso.

– Para você se entreter enquanto espera.

– Espera o quê?! –, gritei num assomo de desespero.

Mas os passos rápidos do decorador já desenhavam sonoramente a sua saída precipitada da escada. Foi então que decidi pôr fim ao pesadelo e passar do sono à vigília.

Filed under: Design

One Response

  1. […] Por exemplo, e ainda, ainda, e ainda. Etc. E o Alexandre O’Neill. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like […]

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