The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Culpa Rotativa

Já houve tempos em que Pedro Passos Coelho se dedicou a prometer com elegância sem dúvida irrealista que, eleito, não andaria a apontar culpas ao anterior Primeiro Ministro. Bons tempos.

Agora, se não é o próprio Passos a fazê-lo, às claras ou por subentendidos, alguém o faz por ele – um colega, um cronista, alguém na rua, etc. E até há quem defenda que quase seis meses ainda não são suficientes para Passos e o seu Governo já terem culpa do que quer que seja – portanto, a culpa só pode ser dos governos anteriores, sobretudo do último.

A lógica bipartidária contaminou a moral democrática: para se defender Passos é preciso atacar Sócrates; para se atacar Passos é porque Sócrates não era assim tão culpado. Mas é um falso dilema: pode-se perfeitamente achar que os dois são igualmente maus, e que em termos de culpa, se Sócrates teve meia década para fazer das suas, Passos anda rapidamente a recuperar o atraso.

Ainda dou o benefício da dúvida a Passos pelo facto de ter renegado o monte de coisas que prometeu (desde não dizer mal de Sócrates a não cortar os subsídios de Natal e de férias). Entre ter mentido deliberadamente para ser eleito ou ter descoberto depois da eleição que não havia condições para cumprir essas promessas – no fundo, entre ser calculista ou incompetente – não me parece que faça diferença. Penso que em retrospectiva foi bastante mais grave ter contribuído para derrubar um Governo, precipitando aquilo que para todos os efeitos é um processo de falência, por não concordar com medidas orçamentais que acabariam por ser bastante leves comparadas com as suas. Fica a sensação que abalou o país na pior altura possível apenas para tomar o poder. E, desde então, já demonstrou calculismo e mentira q.b. impondo medidas suas como se fossem exigências da Troika enquanto vai aproveitando e estimulando a paralisia do PS, e a ineficácia do resto da oposição.

Essa paralisia dos Socialistas deve-se à tal moral democrática: não podem atacar demasiado Passos sem parecer que estão a defender Sócrates; não podem defender Sócrates, mesmo que parcialmente, porque, perante a opinião pública, ou se é culpado de tudo ou de nada, sem meio termo.

E enquanto Passos não parece muito preocupado com a coerência do que diz e faz, o país vai morrendo lentamente de coerência e de fidelidade ao sistema tácito dos dois partidos, que governaram sistematicamente e sem excepção durante as últimas décadas e que, se individualmente conseguem atirar a culpa um ao outro, colectivamente não se deviam poder livrar dela.

Filed under: Crítica, Não é bem design, mas..., Política, Prontuário da Crise

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