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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Alguns pontos de ordem contra a Ordem

Sou contra a formação de uma Ordem dos Designers e já há uns anos que tenho escrito sobre o assunto, mas talvez seja útil fazer uma lista dos argumentos que me levam a discordar.

1. O design é, no fim de contas, uma questão de gosto. Esse gosto é definido a cada momento por uma discussão pública. Limitar essa discussão pública a quem tem um curso é limitar o alcance do próprio design.

2. Em áreas como o design gráfico, a distinção entre amador e profissional é demasiado vaga. Assumindo-se que o design fica limitado a quem tem um curso, deverá ilegalizar-se a produção desregulada de sinais a dizer que maços de cigarros só ao balcão, de teses de mestrado paginadas em Word, de lettering autocolante usado em instalações num museu de arte contemporânea?

3. Se o exercício profissional do design se distingue apenas pela existência de um pagamento ou de um contrato, se  é apenas definido por estruturas de regulação e organização do trabalho definidas pela lei geral e que não se limitam ao design, este pode perfeitamente ser regulado pela lei geral. Ou seja, exceptuando questões de gosto, não é preciso um conhecimento especializado para formar juízos técnicos, legais ou éticos sobre design.

4. E por falar de ética: uma ordem não pode impedir alguém de fazer um orçamento mais barato do que nós, exactamente pela mesma razão que é ilegal as gasolineiras combinarem um preço mínimo: porque lesa os interesses do consumidor. A concorrência só não é ética quando é desleal, e fixar artificialmente um preço mínimo é, por definição, desleal.

5. Limitar o exercício do design a quem tem um curso iria deixar de fora designers talentosos e marcantes que não têm um curso – exemplos clássicos: David Carson ou Dave Eggers. Argumentar que se pode incluir excepcionalmente pessoas com uma obra marcante só demonstra que a qualidade não se mede apenas pelo curso.

a) Este é só um anexo: quando digo que sou contra a ordem aparece sempre alguém a dizer que sou contra o design, o seu reconhecimento público, os designers, etc. É uma falácia evidente. Pode-se defender publicamente um design de qualidade, produzido ética e legalmente sem ser preciso qualquer tipo de ordem. Há oito anos que o faço em público, aqui no blogue ou em conferências, jornais ou revistas. Ter uma autorização legal para o fazer não tornaria os meus argumentos melhores ou piores, tal como não garantiria a qualidade do design.

Update: E mais um sexto ponto.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design

11 Responses

  1. orbidesign diz:

    Permite-me discordar.
    Não vejo como é que a ordem pode impedir o Design de ser Design.
    Acho que está nas mãos do designer, concordar ou não, com os estatutos da ordem e não impedirem que profissionais, (entenda-se profissionais como; alguém que sabe aplicar as ferramentas do design, não na utilização do software) exerçam e criem peças de Design.
    Não se trata de limitar o exercício do design a quem tem um curso, mas sim defender o trabalho praticado por quem é realmente Designer.

    Apenas um ponto de vista entre muitos outros possíveis.

    • Saber aplicar ou não as ferramentas do design é uma questão de gosto, que não pode ser definida com o rigor que uma lei exige. Se não se usar o curso como bitola, quem é realmente um designer? Quem sabe aplicar as ferramentas do desgn? E lá voltamos ao gosto.

      • O mesmo acontece com a obra de arte. Esta o é, por uma questão de gosto, não porque acreditar que um pintor, escultor,… crie obras de arte. Cria sim obras, pinturas, esculturas,…, então a questão será quem define que essa ou aquela é uma obra de arte.
        Assim será com o design, talvez o gosto, sim talvez. Mas terá que se metodologia para essa avaliação, talvez no final talvez seja uma mera questão de gosto, definir Design, se os próprios Designers não o sobrem definir Design. gosto sim mas também algo mais.
        Talvez uma Ordem dos Designers, traga ordem ao gosto ou então possamos chamar-lhe Ordem do gosto dos Designrs

  2. Uma ordem só deve existir para regular uma profissão cuja má prática tenha consequências gravosas.

    Um médico tem de ser reconhecidamente médico senão morre gente; um engenheiro tem de ser reconhecidamente engenheiro senão estoiram coisas e morre gente, um advogado tem de ser reconhecidamente advogado senão vai gente presa injustamente. E por aí adiante.

    Qual a consequência de um mau design gráfico? Talvez menos vendas ou mais dificuldade na leitura mas isso é responsabilidade de quem o aprovou e não há planos de haver uma ordem dos directores de marketing ou dos pequenos empresários.

    Qual a consequência de um mau design de equipamento ou de interiores? Talvez umas dores nas costas ou um bocado de claustrofobia mas continua a ser sempre última responsabilidade de quem contrata um serviço ou compra uma peça de mobiliário e também não vejo nenhuma instituição na forja para ordenar essa malta.

    Nenhuma ordem vai impossibilitar magicamente que se veja coisas que não se gosta ou que outros fiquem com trabalhos que queriamos para nós mesmos. Nenhuma ordem vai solucionar as questões que todos sabemos existirem com os estágios nem vai fazer com que a genralidade do tecido empresarial português de repente ache que os panfletos e os menus do sobrinho valem mais do que zero.

    Devia haver alguma instituição ou forma de agrupar aqueles que praticam o Design (com ou sem curso) de forma transversal e coesa. Algo diferente das duas tristes associações de designers que temos (ou tínhamos, já nem sei…) e daquela coisa que faz a experimenta de vez em quando. Alguma coisa que dê voz e visibilidade aos ofícios criativos metódicos e àqueles que os praticam. Alguma coisa que crie valor para todos, com ou sem curso.

  3. Concordo de certa forma com o que dizes, Rawckee.
    As tais associações de que falas (que também as acho super apagadinhas e que parece que nem existem) acho que são essas as duas que se estão a fundir para criar a Ordem dos Designers, se não me engano…

    Se a Ordem dos Designers devia admitir as pessoas apenas por terem um curso de design ou por saberem mexer em programas da Adobe? Não, acho que não… até porque o que não faltam são as tais excepções de que o Mário fala.
    O que não falta por aí é pessoal que tirou cursos e não é bom designer e também pessoas que foram adquirindo competências com a experiência (e não têm curso) e “fazem bom design”.
    O que uma Ordem não deve fazer é tornar ilegal toda a oportunidade de qualquer pessoa tentar evoluir pela experiência que quer adquirir por trabalhar…

    Avaliar isto tudo é difícil e creio que questões de gosto não resolverão nada…

    Acho que um dos objectivos principais da tal Ordem devia ser contribuir para a valorização da profissão perante o mercado de trabalho… Quantos Designers (muito) mal pagos temos nós em Portugal? (sim, e os há porque há muitos empresários que não valorizam o Design)…

  4. […] tinha deixado aqui cinco argumentos e meio contra a formação de uma Ordem do Design em Portugal. Junto-lhes agora um […]

  5. […] Por exemplo, e ainda, ainda, e ainda. Etc. E o Alexandre O’Neill. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe […]

  6. Só li o primeiro ponto e nem vou continuar.
    Alguem que não sabe do que está a falar não tem credibilidade para o fazer…

  7. Esse primeiro argumento é a lógica da batata, se é esse o princípio que destaca não sabe do que fala. O designer não é simplesmente um artista que produz o que lhe vai na alma só porque sim. Talvez críticos leigos o achem porque não vêm o processo nem a metodologia, só vêm o resultado final.
    Utilizando o design gráfico como exemplo já que foi o que usou também, todo ele parte da comunicação, o objetivo dele é comunicar/ informar o utilizador e o que irá diferenciar um designer profissional de um amador será mesmo isso. Um profissional irá pensar na funcionalidade e eficiência do seu cartaz por exemplo enquanto que um amador irá mais pelo gosto, sem fundamento…é o técnico… O que acha que até tem jeito para o Photoshop e faz umas coisas…

    • Para quem percebe um bocadinho de história, estética e, já agora, design, noções como funcionalidade, eficiência, comunicação não estão, nem nunca estiveram acima do gosto. Uma das “funcionalidades” que qualquer designer tem de cumprir é produzir design adaptado ao gosto da sua época, faça-o de modo consciente ou não. Enfim, já ouvi tantas vezes a treta que o designer está de algum modo fora de gosto que já nem sei porque ainda respondo a isso. É dos piores chavões que anda por aí.

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