The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Chama-se já um arquitecto

Segundo o Diário de Notícias de ontem o projecto da polémica barragem da Foz do Tua será feito por Souto Moura, com o argumento que assim fica garantida “a melhor integração possível na paisagem do Alto Douro Vinhateiro, conseguindo em simultâneo uma obra de arte arquitectónica de referência internacional capaz de funcionar como mais um pólo de atração para a região” – acredito que sim, de tal maneira que o projecto deveria incluir desde já um hostelzito para abrigar toda a romaria de arquitectos que não deixarão de ir até lá.

Infelizmente também acredito, sem ter de fazer muito esforço para isso, que esta é apenas a maneira habitual de calar um monte de ambientalistas em Portugal: convida-se o Siza ou o Souto Moura para fazerem o projecto. É quase o nicho de mercado deles: se algum dia se quiser instalar um cemitério nuclear num bairro histórico nas traseiras de uma reserva ecológica, já toda a gente sabe quem chamar.

Para terminar, dois comentários de ordem mais pessoal:

Primeiro: Os meus pais trabalharam até se reformarem em áreas ligadas ao ambiente, em zonas protegidas e reservas ecológicas. Para eles, uma barragem ou mesmo um daqueles cataventos gigantes significava sobretudo uma ferida na paisagem e na ecologia de um local que – comprovadamente – nunca compensa na realidade. Cometer um desastre ecológico em nome das energias renováveis era pouco melhor do que fazê-lo em nome das outras. E a coisa não melhora quando se junta a um destes desastres o nome de um arquitecto conhecido, daqueles que quando ganham o Pritzker não perdem tempo a comentar que agora é que vão fazer o que lhes apetece, acabou-se a burocracia do costume, sobretudo aquela que regula a bicharada protegida.

Segundo: Já tive família na Régua e cada pedaço daquela paisagem ainda consegue, só por si, sobressaltar-me o fôlego. Subir o Douro de comboio é para mim uma experiência de tal modo intensa que é rara a semana em que não sonho com isso à noite. E não, não gosto particularmente de divulgar aquilo com que sonho, mas neste caso é nitidamente uma emergência – faço-o porque para mim é particularmente insultuoso que se sugira que uma barragem, por mais bonita que seja, possa ser considerada património mundial. Nunca o será ao mesmo nível da paisagem que ajudou a destruir.

(É por estas e por outras que nunca achei uma grande ideia haver uma Ordem dos Arquitectos, no sentido em que implica que a arquitectura é um direito, um recurso, é tudo.* A metodologia por defeito da arquitectura é resolver um problema construindo qualquer coisa, mesmo que disfarçadamente. Ou seja: raramente são pagos para deixarem as coisas em paz. Há bastantes ocasiões em que não ter arquitectura também é um direito.)

* Neste último caso, Souto Moura dixit.

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design

13 Responses

  1. Luís van Zeller diz:

    Esta é certamente mais uma ideia brilhante do presidente da E.D.P. Atirar com o nome de um grande arquitecto para disfarçar o disparate da projectada barragem da Foz do Tua.A seguir vamos ter outros tantos arquitectos de nomeada na de Fridão ,Gaivões,Alto Tâmega,etc.
    Um cérebro esse tal de Mexia. Quem não o conhecer que o compre.

    • Nuno diz:

      A uma escala quase incomparável basta pensar que o Peter Behrens tinha um grande fã no Hitler, e não seria estranho que o chamasse para desenhar edifícios bestiais para albergar as suas atrocidades.

      Isto para dizer que o arquitecto idealista que queira construir raramente vai além daquilo que o seu promotor permite ou deseja.

      Os restantes limites são uma questão de escrúpulos e talento, por vezes mais vantajosos se estiverem numa relação de proporcionalidade inversa, como fica óbvio pelo episódio.

  2. Pim diz:

    Ressabias contra tudo e todos…neste caso, como em qualquer outro que envolva a “metodologia por defeito da arquitectura”, preferias que Portugal e o resto do mundo continuassem com paisagens dos tempos jurássicos?

  3. maria diz:

    A construção de barragens implica que o meio ambiente dessa zona ( plantas, animais, e agricultura) vá ser alterado, de uma forma brusca.
    Havendo consequências, ás quais a natureza irá responder a seu tempo.

  4. maria diz:

    Os “rodízios” nos cumes dos montes.. perturba.
    É como olhar para o mar, ver que um navio não seguiu o seu rumo e ali se fixou, que jamais se conseguirá descansar o olhar sobre a linha do horizonte.

    • Nuno diz:

      A alternativa em termos de produção (fora o deixar de usar electricidade) é importar combustíveis fósseis da indústria extractiva proveniente de teocracias, ditaduras e pseudo-democracias e que têm impactos económicos e ambientais muito maiores, só não têm é a aquela chatice da visibilidade nos montes, que pessoalmente acho que não é a bitola mais prioritária.

      Existe um enorme potencial de poupança, mas há que abordar meios de produção, se queremos evitar outras situações piores, como o são muitas barragens.

  5. diz:

    Essa da metodologia da arquitectura é óptima. Portanto, por defeito a metodologia de qualquer profissão deveria passar por fazer-se pagar para não fazer nada e assim não ofender o direito de quem não quer nada feito. Parece-me bem. Faço até uma adenda, todas as profissões excepto a sua deviam deixar de existir, para se pouparem pagamentos e argumentos vazios.

    • Nenhuma profissão deveria existir apenas em função de quem a exerce, mas dos interesses da sociedade em geral.

      E sugerir, como tem sido feito em alguns comentários a este texto, que a arquitectura ou está a construir a torto e a direito, ou então está condenada a deixar de existir, só sublinha o meu ponto de vista (que para muita gente, arquitectura e conservação da natureza estão em lados opostos da barricada).

  6. Pitx diz:

    Mário não podia deixar de concordar mais consigo. É a vitória da parolada e da boçalidade em potência. Andamos de facto entregues a estes bichos que dominam e decidem o que é do interesse de todos, sem pedirem opinião de ninguém. De pessoas subservientes e entregues à adulação de uns quantos vaidosos, que por serem arquitectos julgam que são “Soutos Mouras”, como se a paisagem dita jurássica não fosse o nosso maior património. É o que se chama pensamento à novo rico. Que psicopatas.

  7. […] lá morreram três infelizes numa derrocada na construção da tal barragem,  juntando-se uma desgraça humana a um desastre ambiental e a uma parvoeira cultural. Confesso […]

  8. […] o então Secretário de Estado Francisco José Viegas teve a ideia – vamos chamar-lhe isso – de convidar o arquitecto Souto Moura para projectar a barragem, acrescentando que se ia “pigmentá-la” para diminuir o seu […]

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