The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Um Buraco no Chão e mais nada

(Antes de começar, e para evitar os comentários do costume: lembro que já aqui deixei algumas vezes a minha opinião sobre o design e a arquitectura dos Metros do Porto e de Lisboa, e que essa opinião é em larga medida negativa, o que não significa de modo algum que acredite que o Metro não deva ter design ou arquitectura; apenas que o seu design e a sua arquitectura deveriam ser bastante melhores, dado o dinheiro e os recursos gastos nisso.

Resumindo: criticar uma coisa não implica querer dar cabo dela, mandar para o desemprego quem a faz, despejá-lo de casa, matar-lhe o gato, pôr-lhe os filhos para adopção, etc. Significa apenas que temos uma opinião sustentada sobre essa coisa e o estamos a declarar publicamente. Se não há mais nada que a consiga defender que não um apelo ao silêncio, o problema não é nitidamente de quem critica, mas de quem a concebeu e de quem é obrigado a usá-la.

Feito o lembrete, comecemos então.)

Na sua coluna de opinião no Público, o jurista Pedro Lomba defende que quem “quiser perceber o Portugal dos últimos 20 anos, pode e deve olhar para o caso do Metro de Lisboa ou, se quiser descentralizar, do Porto. A dívida da empresa anda pelos 3,8 mil milhões de euros. A administração justifica-se com as obras de expansão da rede que agora tem de pagar.”

Uma das razões para o descalabro – argumenta Lomba – sucedeu no início dos 90 quando a “megalomania e a excessiva liberdade dos administradores da empresa” levou a que as estações se enchessem de “‘condições estéticas’ – a que alguns chamam ‘arte’ – com o magno propósito de tornar uma estação de metro numa espécie de Hermitage do subsolo lisboeta.” Ou, de acordo com o site do Metro de Lisboa, citado por Lomba: “Desde a construção das suas primeiras estações na década de cinquenta, que a preocupação em dotar os espaços públicos de condições estéticas que amenizem os efeitos negativos de um ambiente subterrâneo tem sido uma constante no Metropolitano de Lisboa.”

Lomba pergunta-se qual o obscuro motivo para esta súbita preocupação com a estética a partir dos anos 90 e acrescenta que os “ingleses e franceses têm metropolitano há 100 anos, com muitas estações elementares e não se sentem expostos a quaisquer ‘efeitos negativos’, muito menos pretendem que o metro os ‘amenize’. Se estamos num ‘ambiente subterrâneo’, queremos sair dali depressa e bem. Mas o Metro de Lisboa tinha outra nobreza.”

Quanto ao sucesso da estética do Metro de Lisboa, confesso que não gosto por aí além. Parece-me que, nalguns dos piores exemplos, um centro comercial dos anos 80 se afundou por causa de um qualquer movimento tectónico, tendo sido reciclado como estação de metro. São estações feias e sujas como um gelado que caiu ao chão. Só digo isto para que não se fique a pensar que, por defender a importância da estética no metro, estou a defender o design ou a arquitectura do metro de Lisboa.

Mas o que me diverte no texto de Lomba é a ideia que os ingleses e os franceses nunca se preocuparam com essas coisas da estética das estações de metro, nem tentaram amenizar com todas as suas forças as viagens subterrâneas. No caso francês, por exemplo, acho que uma das entrada do Metro de Lisboa (Picoas) é a réplica de uma parisiense num estilo Arte Nova que dá a entender que se calhar até se preocupavam com essa coisa da estética. Quanto aos ingleses, cujo Metro de Londres é um buraco cheio de problemas, desde há quase um século que se tenta amenizá-lo recorrendo à estética: o seu mapa é de tal maneira famoso e imitado em todo o mundo que se tornou um dos símbolos da própria identidade urbana de Londres.

Este diagrama foi desenvolvido durante a década de trinta, economicamente deprimida, e fez parte de uma campanha de charme para atrair passageiros às suas linhas pouco rentáveis e sub-utilizadas. Houve campanhas de cartazes promovendo o sistema de metro como um modo rápido de chegar à relativa natureza dos arredores ou incentivando a ir de comboio até aos museus, com o único propósito de rentabilizar o metro ao fim de semana. As campanhas eram de tal modo inovadoras (e bonitas) que foram alvo de inúmeras exposições retrospectivas que se prolongam até hoje.

O  metro de Londres é um excelente exemplo de como transformar um buraco no chão numa instituição cultural em plena crise económica. Aqui em Portugal, o objectivo parece ser o oposto: transformar tudo, instituições, cultura, política, num buraco no chão. E o texto de Lomba é um bom exemplo do nível da discussão “informada” que é preciso suportar durante esta crise.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Prontuário da Crise

One Response

  1. A diferença estará entre ‘bom design’ (num sentido mais tradicional do termo, aplicado em Londres, onde se transforma a economia de meios numa mais valia, como foi o caso da renovação entre as antigas estações com tons escuros da madeira, para o -agora- tradicional branco, ou nos mapas onde se falseia a distância e a dimensão das estações com vários ramais para atrair clientes) e a ostentação (nos materiais e na escala, por exemplo, de algumas estações do metro de Lisboa). Este ponto de partida parece aliás um exemplo perfeito para didacticamente se explicar a diferença entre bom e mau design, bom e mau investimento público.

    (como nota de rodapé repara no livro promocional de portugal na fotografia do metro… apenas uma carruagem =)

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