The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Não é isto, é outra Coisa Qualquer

(via This Isn’t Happening)

Chateia-me sempre quando se diz que em Portugal o cinema, a pintura, a literatura, a música, o design, a crítica – ou outra manifestação cultural qualquer – não existem. E acrescenta-se com ar pomposo que ainda não existe uma versão autêntica destas coisas por aqui, apenas uma pretensão, uma espécie de simulacro amador. A verdadeira cultura seria a que se vai praticando na cena internacional. Por aqui há apenas uns tantos a fazerem de conta, na sua maioria sustentados pelo dinheiro dos contribuintes, não conseguindo sequer fazerem-se pagar honestamente.

É um tique de discurso snob e obviamente provinciano, que toma o lugar de um juízo de gosto, eliminando-o – substitui o acto de dizer se gostamos ou não de alguma coisa pelo acto de fazermos de conta que algo que está mesmo ao nosso lado nem sequer existe. O efeito disto é conhecido: uma cultura onde se sabe mais sobre o que se vai fazendo em Londres, Berlim ou Nova Iorque do que ao fundo da rua.

A função da crítica, ou até do simples gosto antes dela, é participar de uma opinião pública, serve para convencer ou ser convencido que vale a pena apreciar qualquer coisa, que essa coisa merece que se gaste o nosso tempo e os nossos recursos nela, tanto directamente, da nossa carteira, como indirectamente através de investidores ou do Estado.

Dizer que, apesar de haverem aqui manifestações culturais, cinema, teatro, literatura, design ou crítica, elas não existem verdadeiramente, é desautorizar uma parte importante da nossa opinião pública, deslocalizando-a para outras bandas. E é assim que vamos sendo treinados para importar a nossa democracia já feita: se o nosso gosto vem sempre de outros lados, não espanta que a nossa soberania acabe também por daí vir.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Política

3 Responses

  1. fionafly diz:

    Essa reacção, e esses tipos de comentários, é um pouco como aquela publicidade da Ballentines ” Do like the others”. Esse tipo de comentário é de quem não procura, e quando existe um evento cultural, é sempre bom demais para o ir ver ou participar.
    Eu sou de uma cidade pequena Viana do Castelo, e por muito que adore a minha cidade e não a trocasse por nada, posso afirmar que existe uma grande quantidade de snobismo concentrada aqui por metro quadrado. Tanto snobismo, que mesmo para ocasiões snobistas muitos são bons demais para ir lá. Podemos dizer que o nosso calendário anual, ( e principalmente para o orçamento dos nossos autarcas) gira pela Festas da Sr da Agonia. E uma das queixas mais comuns é, principalmente da população jovem ” EU detesto esta cidade, esta cidade não tem nada, nesta cidade não se faz nada”. Ora eu sou uma jovem, e entendo porque dizem isso (também porque hoje em dia considera-se fazer qualquer coisa sair a noite para um bar e apanhar uma bebedeira), mas a verdade é que sempre que há alguma actividade cultural: desportos a beira rio, actividade no nosso centro de interpretação ambiental, teatro, conversas com escritores que são convidados para a nossa biblioteca, e toda a palefernalia restante, não se ve uma alma, ou então ve se quase sempre as mesma almas nessas actividades. E depois outra queixa “ai não vem nada de novo para aqui” pois não: porque tudo fecha porque a partir do mes que deixa de ser novidade, voltamos a mesma rotina. Posso resumir os Vianenses, como pessoas que no Verão são tipo gremllins nascem não se sabe de onde para a rua, que no Inverno, há ruas que até se tem medo de passar de tão vazias; que passam a vida no único cinema que temos e que nos esfola á força toda, e que numa cidade minima, temos 5 grandes superficies comerciais, sem contar com o resto.
    isto numa cidade pequenina provenciana, eu costumo pensar se isto me assusta, quando extrapolo para o resto do pais é frustante. Acaba por ser um ciclo vicioso, se não a publico, como pode haver arte?
    Portugal tem muito para dar, é só deixarmos de pensar no que está lá fora, e pensar no que temos, porque se os estrangeiros aqui encontra potencial, poque nós não vemos?.Eu penso assim um pouco , o nosso mal é ser uma maria vai com as outras, porque nós temos as nossas potencialidades, mas temos de andar sempre a fazer o que os outros fazem, quando muitas vezes nem temos a possibilidade.

    Desulpa lá o comentário grande, e muito bom blog 😉

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