The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Maus Hábitos

Não foi o design que nos trouxe esta crise, mas será sem dúvida uma das profissões mais afectadas por ela, pelo menos em Portugal. Sempre foi uma área muito dada à precariedade, ao ponto desta estar firmemente embutida no ciclo natural de vida do designer, onde se espera que a grande maioria passe por um estágio não-remunerado entre a universidade e uma carreira a sério.

Eu próprio passei por isso e houve colegas meus que ficaram até dois anos a “estagiar” sem receber um tostão, fazendo sozinhos trabalho a sério, orçamentado em dezenas de milhares de contos – se ainda falo aqui de escudos não é por lapso mas por a história ser antiga.

Já na altura o “estágio” era uma promessa de contacto com o “design a sério” numa “empresa de prestígio” em troca de trabalho gratuito. E já na altura me parecia estranho que boa parte do portfolio das tais “empresas de prestígio” fosse assegurado por gente à qual a própria empresa não reconhecia mérito que chegasse para um salário, por pequeno que fosse.

E isto era tolerado porque as “coisas são assim”, e “a vida não é fácil”.

Foi precisa a crise para se começar a discutir em público a economia perversa do estágio, principalmente porque a vida está ainda mais difícil e porque o estágio é uma espécie de propina extra, um ritual de passagem que muita gente já não tem meios para suportar e que, mesmo cumprido, já não garante absolutamente nada.

Tem-se falado muito das consequências psicológicas do desemprego prolongado, mesmo para quem não tem problemas imediatos de dinheiro. É sem dúvida essa ansiedade profunda, esse medo, que leva muitos a embarcar em estágios, workshops e pós-graduações de qualidade fanhosa – é melhor do que estar em casa parado. E assim vai-se mantendo uma indústria oportunista que prospera à custa do trabalho gratuito.

Mas seria útil perceber que design, estágio e precariedade não são necessariamente sinónimos – há maneiras mais dignas e honestas de construir uma carreira. E que muita da falta de qualidade formal do design português  é uma consequência directa da maneira como muitas das suas empresas funcionam, atirando fora escrúpulos e dignidade em nome da mera sobrevivência económica (seria possível dar mais argumentos para o justificar, mas bastaria este: uma empresa cujo trabalho é feito por vagas sucessivas de estagiários é uma empresa cujo grau de qualidade corresponde ao de um recém-licenciado que do ponto de vista dessa mesma empresa não merece sequer um salário).

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Economia, Estágios, Política, Prontuário da Crise

12 Responses

  1. _f_[X] diz:

    É interessante perceber que é exactamente nesta área que este tipo de situações perversas ocorrem com maior frequência; infelizmente, o estágio passou a ser sinónimo de mão-de-obra barata/gratuita, e não como um período de aprendizagem e avaliação, permitindo às empresas filtrar os melhores candidatos em início de carreira. Gostaria de pensar que um dia se perderá o medo e o não às falsas oportunidades passará a ser uma norma e não uma excepção.

  2. Rene Zielbeger diz:

    A especulação do trabalho “Spec Work” é um método comum em todo o mundo, principalmente nas áreas criativas como o Design. O problema está em as pessoas aceitarem ou não ser especuladas pelo seu trabalho.
    Isto não poem em causa a qualidade dos produtos das empresas nem o seu sucesso de vendas, apenas se conseguem-se financiar de mão-de-obra mais barata ou gratuita, e em tempos de crise as pessoas aceitam (daí a crise não ser por acaso). Um mercado especulativo só vai contribuir para que os Designers tenham cada vez menos rendimentos.

    Nos EUA durante anos pagou-se ordenados enormes a pilotos aéreos, as companhias para baixarem os ordenados começaram a incentivar muita gente a tirar o brevet de pilotagem criando para isso mais escolas, cobravam preços altos pela formação e no final havia mais pilotos que o necessário. Acabaram por conseguir descer significativamente os ordenados e ainda deixaram os futuros pilotos penhorados a pagar um curso que lhes trará menos rentabilidade.

    Nada neste mundo acontece por acaso, em qualquer situação é necessário ver quem lucra com isso.
    Quando muitos perdem, uns poucos ganham e muito.

    Se alguém tira uma formação numa universidade credível, será um profissional sem experiência, como tal poderá receber menos mas deverá sempre ser pago pelo seu trabalho.
    Quando dizem que um designer sai verde da universidade e não sabe nada logo não merece remuneração, estão a dizer que a universidade não tem credibilidade nenhuma. Mas as universidades aceitam isso, desde que tenham lá alunos para pagar a mensalidade. Mas quando tiverem menos já se vão preocupar. It´s just business.

    Uma empregada de limpeza poderá ganhar pouco, mas tem de ser paga. Agora imaginem que eu tenho um Hotel e preciso de mão-de-obra para o limpar, poderia abrir um estágio para ver qual a melhor empregada de limpeza. Depois de limparem tudo escolhia uma, dava emprego durante 3 a 6 meses e tinha conseguido limpar um hotel gratuitamente. Ótimo, não? Mas para quem? Para o País, para a empregada ou para a empresa?
    Se isto não faz sentido, também não fará para um designer.

    Portugal ainda tem uma grande falha, porque não existe uma entidade capaz de defender os direitos desta classe, além disso, muitos acham estes workshops e concursos normais. Na realidade é apenas uma maneira de obter mão-de-obra gratuita.

    Se uma empresa tem um produto extremamente rentável e consegue vende-lo bem, não significa que esteja a formar excelentes designers, dai não ser um negócio benéfico para ambos.
    Não preciso dizer que no passado trabalhava-se a troco de comida e dormida e se alguém reclama-se era castigado. Hoje o castigo é outro, o endividamento. As pessoas são obrigadas a tudo porque estão endividadas. É escravatura do seculo XXI.

    Se a empresa é rentável os Designers só tem de a convencer a pagar melhor. In the end of day is just business. O que falta aos Designers em Portugal é saber negociar, e não se deixarem intimidar.

    O que se pode fazer pelo Design em Portugal? Todos Designers podem perguntar ás entidades competentes, o que acham do “Spec Work” e debater o assunto. Para que no futuro não achem normal que se tenha por exemplo 100 pessoas a trabalhar durante 8 dias sem qualquer tipo de remuneração.
    Imaginem que mesmo que não se pague por mão-de-obra qualificada, mas por exemplo 2€/hora 2x8horas= 16€ x 8 dias= 128,00€ x 100 pessoas: 12800,00€ para 100 pessoas em 8 dias de trabalho. Este dinheiro fica na empresa e não circula na economia, logo não beneficia o País em nada, apenas a empresa.
    As pessoas não conseguem perceber isso porque são inexperientes e procuram os 5 minutos de fama prejudicando-se a elas mesmas. Claro está que no final algum dos 100 pode ficar na empresa mas e os outros 99, trabalharam de borla?
    Ninguém se faz Designer em 8 dias, são precisos anos de experiência para ser reconhecido, mas muita gente só procura o glamour da profissão, só que 90% é suor e lágrimas, que mais uma vez digo, devem ser pagas.
    Todos os casos de Spec Work devem ser expostos. É muito importante para que existam profissões credíveis no futuro.

    • _f_[X] diz:

      O Spec Work, a vulgar e comum proposta criativa, representa, na minha opinião, um dos maiores cancros desta área, fomentando o canibalismo das ideias ao preço da uva mijona.

      Tem sido, e continua a ser, diariamente, uma luta tremenda para que quem lida com o cliente perceba os riscos de apresentar trabalho criativo não adjudicado, principalmente nos dias que correm em que qualquer miúdo de 12 anos aprende a mexer com o Photoshop em 2 semanas e reproduz, mesmo que grosseiramente, o trabalho desenvolvido pelos profissionais da área.

      Houve um movimento de contestação, na Austrália, se a memória não me falha (há coisa de uns dois, três anos), das maiores agências que, fartas de competir umas com as outras, deixaram os respectivos sites em baixo durante uns tempos e colocaram nas homepages um manifesto contra o spec work. E, sinceramente, deviamos seguir este exemplo e começar a sensibilizar as pessoas que ninguém trabalha, nem deve trabalhar, de graça – tal como ninguém vai a um café e prova um bolo apenas para saber se gosta ou não.

  3. O que me mete mais medo hoje em dia é que se possa pensar, como em outros tempos, tenha-se que pagar para trabalhar.
    Ou seja, em nome de qualquer coisa. A entidade empregadora irá fazer o “favor” de receber a “criatura autômato” para poder por em pratica os conhecimentos adquiridos ao logo dos anos de faculdade e experiencial profissional (no caso de desempregados de longa data).
    Desta forma, o candidato poderá receber a meritória declaração para colocar no currículo vitae que se estagiou em empresa.
    Pagar à empresa para receber, no seu perfil empresarial, os “Autômatos” em nome do admirável mundo novo, onde possibilidades de voltar a ser extorquido não faltara.
    Viva aos Autômatos!.
    A solução a crise financeira de sempre.

  4. Leitor diz:

    O que impede os designers e recém-licenciados simular em casa respostas a briefings, tornando o seu portefolio mais forte para que lhe garanta uma entrada numa empresa a sério? Não há carreira nem futuro sem trabalho. Agora deixem-se de dar atenção aos mais fracos. Lembrem-se do que recentemente disse o magnata Murdoch, que se aplica e bem:

    “The world is changing very fast. Big will not beat small anymore. It will be the fast beating the slow.”

  5. Spec Work NO diz:

    REPARAÇÃO GERAL

    A todos os picheleiros, pintores, trolhas… não têm o que fazer no feriado? Venham cá a casa fazer umas reparações em regime de WORKSHOP.

    Não fique no sofá, temos muito para lhe ensinar.

    No final do dia temos pão fresco d´ontem, deixado pelo padeiro que veio cá fazer um WORSHOP de pastelaria…

    PS – Tragam as vossas ferramentas e materiais.

  6. Maria Monteiro diz:

    Muda-se o disco e toca o mesmo… :/

  7. Maria Monteiro diz:

    Muda-se o disco e toca o mesmo… :/
    Infelizmente o modus operandi é contratar recém licenciados talentosos, elogiar as suas qualidades para no momento seguinte os fazerem trabalhar por uma pessoa e meia ou por duas, com a desculpa de que são mais lentos e de que afinal têm imensos defeitos. Apenas para os circunscrever mentalmente àquele estúdio e para os fazerem sentir de que afinal não têm assim tanto valor quanto isso. Depois disto os elogios aparecem apenas à frente dos clientes, ocasionalmente, quando os designers mais antigos não roubam os louros por trabalhos que não desenvolveram e nos quais nem tocaram.
    E as conversas sobre crise são tidas por um chefe com uma expressão muito preocupada no rosto e com um relógio novo de 2000 e tal euros no pulso, comprado com os lucros facturados com o nosso trabalho…
    A crise mais preocupante em Portugal, na minha opinião, é a crise de valores.

  8. Curioso diz:

    “uma empresa cujo trabalho é feito por vagas sucessivas de estagiários, é uma empresa cujo grau de qualidade corresponde ao de um recém-licenciado, que do ponto de vista dessa mesma empresa, não merece sequer um salário”

    Conheço muito bom recém-licenciado. Tiveste mal aqui. De resto, assino por baixo. Eu passei por uma situação muito parecida e é esgotante. Nunca mais repito a experiência. Ou me pagam o que mereço ou não trabalho. De “borla” nunca mais; para mim chega, porque sei bem o meu valor enquanto profissional.

    • Por melhor e mais brilhante que seja um recém-licenciado melhorará quase sempre com o passar dos anos; uma empresa como a que descrevo não. O propósito evidente do texto não é menosprezar os recém-licenciados mas criticar as empresas que os exploraram.

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