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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Indústria Cultural do Atraso

Diz-se de Portugal que é um país atrasado, que se vai modernizando, mas o que quer isso dizer exactamente? Em, geral, que existem as chamadas economias avançadas e, atrás delas, ocupando os degraus cada vez mais curtos de um gráfico de barras, as que estão em vias de desenvolvimento.

É um esquema que dá a entender que entre os países há as vanguardas e depois os que vêem atrás, os atrasados, alunos melhores ou piores, que aprendem ou não com o exemplo que vem da frente. Sugere que há uma escala de progresso igual para toda a gente, ao longo da qual se pode subir e descer de modo linear.

Segundo o antropólogo Arjun Appadurai, o esquema implica que a ideia de modernidade é subtilmente distinta no centro e na periferia: enquanto no centro é um conceito temporal, um progresso no tempo, na periferia é um conceito geográfico, uma aproximação em relação a um centro.

Disto derivam culturas que valorizam a importação e a tradução acima da produção local e da própria língua. A experiência estética e a crítica, por exemplo, não tratam de perceber imediatamente aquilo que têm à sua frente, mas fazem-no em relação ao que se supostamente se passa no centro.

Um exemplo: se musicalmente aparece nos países centrais um género, a função da crítica torna-se descobrir quem será a versão local disso: quem são os Beatles Brasileiros ou os Pogues Portugueses. Outro exemplo: começa-se a crítica de um filme ou de uma exposição, não pelo que se está a ver, mas por uma contextualização desta na cena internacional.

O resultado é uma desautorização constante do momento e local presentes em função de uma modernidade que nunca está de facto aqui e agora. É ter de estar sempre a passar ritualmente por um centro distante para viver o dia-a-dia.

Assim, a periferia não é apenas a distância em relação a um centro, mas todo um modo de ser e de estar produzido culturalmente, aqui e agora, com o objectivo de tornar o verdadeiro aqui e agora numa coisa distante.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Política

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