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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Crise da Crítica

Entre as características mais marcantes do design da última década está sem dúvida a proliferação da crítica, da escrita sobre design em geral e da publicação dedicada ao tema. Se há uns trinta anos era perfeitamente possível ir lendo quase tudo o que de melhor e mais marcante se escrevia sobre o assunto, agora a torrente não pára, alimentada por revistas, blogues, catálogos, teses, comunicações, etc.

Nos catálogos da 1ª e 2ª Exposições de Design Português, por exemplo, vinha uma bibliografia – que se adivinha exaustiva – de tudo o que se tinha publicado em Portugal até à altura (o final dos anos setenta), na sua grande maioria artigos em jornais e revistas. Não era uma lista grande – desconfio que com algum trabalho se podia ler aquilo tudo em muito pouco tempo. Agora seria impossível, mesmo reservando os esforços à produção nacional, alimentada sobretudo pela investigação académica (à primeira vista, e guiando-nos pela tal lista dos anos setenta, há menos escrita nos media generalistas do que na altura).

O aumento desta produção deve-se principalmente a dois factores: por um lado, o acesso fácil a plataformas de publicação online e a serviços económicos de print on demand; por outro, à academização crescente do ensino do design, através do aumento de mestrados e doutoramentos e da apresentação de comunicações em congresso.

No primeiro caso, o aparecimento dos blogues e redes sociais permitiu a muitos designers publicarem com uma regularidade inteiramente nova as suas opiniões, não as limitando a colaborações esporádicas em jornais, revistas ou livros. Deu a possibilidade, também, da criação de públicos alargados que não se cingem ao tamanho de uma sala de aulas ou de conferências, permitindo a exposição e confronto de ideias que de outra maneira ficariam insulares.

A nível internacional, criou uma nova leva de designers-críticos que alcançaram alguma celebridade mais pela sua escrita do que pelo seu trabalho gráfico – Armin Vit, Michael Bierut, William Dentrell e Jessica Helfand, entre outros. Muitos deles já publicavam antes da Era do Blogue, embora sem a notoriedade que teriam graças a plataformas como o Speak Up ou o Design Observer.

Mas a relação com a blogosfera não era pacífica, sobretudo no caso destes velhos críticos: queixavam-se do facilitismo da crítica, do anonimato dos comentários, da ausência de uma hierarquia editorial, da falta de legitimidade académica – essencialmente que a internet não era um livro, uma revista ou uma universidade. (Ironicamente, e até à aparição dos blogues, a escrita sobre design, em geral limitada a textos curtos e informais, era acusada destes mesmos problemas.) Com o tempo, muitos blogues interessantes acabariam resolver o “problema”, tornando-se mais editoriais, pedagógicos, académicos e completamente desinteressantes – o declínio do Design Observer é talvez o melhor exemplo.

Outra das maneiras como se resolveu o “problema” dos blogues foi através da academia – o que nos traz ao segundo caso. Durante os últimos dez anos, e como parte das políticas de qualificação académica formal, incentivaram-se os mestrados e doutoramentos em áreas como as artes, onde este género de produção não existia até então – embora houvesse investigação em história de arte, por exemplo, esta não era feita por artistas. Em alguns casos, criaram-se cursos especificamente dedicados à crítica do design – por vezes anunciados como trazendo finalmente legitimidade à actividade. Como é evidente, esta legitimidade tinha como obrigação um estreitamento do que se aceita como crítica válida, colocando a escrita para jornais e revistas, especializados ou não, no topo da lista, logo seguida da apresentação de investigação académica em congressos ou provas.

No entanto, conforme assinala Rick Poynor num artigo recente, o mercado editorial está em crise e não tem havido grande espaço para textos dedicados ao design com alguma profundidade na imprensa generalistas, bem como para novas revistas de design – o texto de Poynor é um comentário ao número da revista Grafik dedicado à crítica que, significativamente, seria também o seu derradeiro, porque a revista fechou. Poynor pesa as contribuições de vários designers e críticos sobre a crise da crítica. Muitas delas resumem-se a admitir de modo mais ou menos indirecto que a crítica de design foi uma bolha derivada da internet, mais outra moda que acabaria quando a novidade esfriou e se institucionalizou. Outras respostas dão a entender que a crítica, tal como o design social, não sobreviveu bem à crise económica, tornando-se mais difícil nestas alturas dizer mal do trabalho de colegas – uma objecção curiosa: não me parece fácil em qualquer ocasião.As mais interessantes defendem o papel dos editores, dos ensaios de longa duração e da edição independente.

Pessoalmente, acredito que a crítica, quando é interessante, será sempre incómoda, qualquer que seja a estrutura onde é produzida – editorial, académica ou outras. A sua função é sustentar a discussão pública que serve de base à democracia – neste aspecto é um parente próximo da opinião pública. A hierarquia institucional é quase sempre um contraponto da democracia que pode ser produtivo, no caso das hierarquias editoriais, sustentando, protegendo e melhorando a crítica, ou negativo, no caso dos variados modos de censura. De todas as contribuições comentadas por Poynor a que mais me tocou foi a última, a do editor da Eye, John Waters:

You can learn a lot by editing other writers, and by being edited, but this is often not understood, either in the “post my rant” world of blogging, or the “publish my thesis” zone of academia.

As formas mais negativas de hierarquia, sobretudo num país como Portugal, pouco habituado à liberdade de expressão, não têm como efeito um silenciamento – na verdade produzem uma abundância de verborreia autoritária, burocrática e vácua – mas isolam e limitam o alcance da opinião. Das piores heranças da censura em Portugal, é a confusão que ainda se vai fazendo entre o trabalho de um editor, que trabalha, corrige e melhora o texto de um autor, com o de um censor. Pessoalmente, gosto de trabalhar com um bom editor porque me poupa trabalho no lado mais mecânico da escrita, corrigindo erros e repetições, puxando-me para áreas mais inesperadas do lado dos conteúdos. Curiosamente, a pior característica das piores hierarquias é que impedem que coisas essenciais sejam feitas em grupo.

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Filed under: censura, Crítica, Cultura, Design, Ensino

2 Responses

  1. […] – um dos mais fortes indícios da nossa falta de maturidade democrática é a confusão regular da crítica com a censura. Ou até do trabalho do editor com o do […]

  2. […] o primeiro tem a ver com um aparente ressurgimento de interesse pela crítica, depois da sua crise ter sido declarada; o segundo tem a ver com a aparente emergência de uma nova forma de crítica, uma pós-crítica no […]

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