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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Valerian ou a Educação Política

A melhor parte da minha formação política tive-a sem querer, numa idade em que ainda não se pensa nessas coisas mas onde elas deixam, talvez por isso, marcas indeléveis. Tive-a através da banda desenhada e em particular de uma série de ficção científica francesa chamada Valerian, que comecei a ler por volta de 1982. O protagonista era um viajante no tempo, agente de uma civilização futura que não só exercia uma influência discreta sobre toda a história da Terra como procurava alargá-la a outros planetas, nem sempre da forma mais correcta.

A primeira história, publicada originalmente em 1967, passava-se numa Nova Iorque dos anos sessenta alagada e invadida pela vegetação tropical por causa de um degelo provocado por uma explosão nuclear nos gelos polares. Jean Claude Mézières desenhava a cidade com um estilo evocativo e uma tristeza poética que ainda hoje impressionam, enquanto o argumento de Pierre Christin era uma pequena obra prima que discretamente descrevia a vida numa sociedade do lado de lá do colapso.

As histórias seguintes seriam mais grandiosas e cósmicas, tratando temas como a intervenção colonial, a oposição entre natureza e progresso, o confronto das ideologias, o mundo empresarial, etc. Tudo assuntos ainda actuais, abordados com uma elegância e poesia que acabariam por se perder lá para meados dos anos noventa, quando as alegorias começaram a ser explicadas com mão pesada e as histórias se tornaram cada vez mais auto-referenciais – o ambiente começou a ser o de um churrasco feito entre velhos amigos.

Apesar de tudo, seria uma série importante ao ponto de se considerar que influenciou a estética do primeiro filme da Guerra das Estrelas, em particular a famosa cena da cantina ou mesmo o design das naves. Porém a maior qualidade das suas melhores histórias é a maneira como articulavam uma consciência política complexa, sem pretos e brancos ou soluções enlatadas. Durou quarenta anos, em cerca de vinte álbuns, tendo sido – felizmente – dada por concluída pelos seus autores. Não estava a envelhecer bem. As últimas histórias, sobretudo depois de Estação Brooklyn, Terminal Cosmos (o décimo álbum), já só as folheei por nostalgia.

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Filed under: Banda Desenhada, Crítica, Cultura, Política

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