The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Fui à Espanha. À vinda para cá fiquei assustada.”

Atingimos um nível, neste país, que já não é possível contar uma piada sem que ela corra o risco de ser ultrapassada pela realidade nem quinze dias depois. A propósito da barragem a ser construída no Tua por Souto Moura e que Francisco José Viegas se propõe “pigmentar” como camuflagem para diminuir o seu impacto na paisagem protegida do Parque do Douro Internacional, escrevia eu:

“Imagino que convide um artista da nossa praça para a pigmentação, talvez um Cabrita Reis ou um José Pedro Croft que empilhem também umas lages de mármore, representativas da região (geólogos, se estão a ler isto, é uma piada, parem de gemer). E a intervenção não pode parar aí: convida-se um ensemble de música noise para disfarçar os estampidos da dinamite e um grupo de artes performativas vestido de amarelo para realizar um peça baseada nos movimentos rítmicos dos catrapilas. Podia-se fazer um festival de música alternativa chamado Milhões de Betões.”

Devo estar a ganhar uma espécie de super-poder para detectar à distância atentados ambientais disfarçados de intervenções culturais ou mais exactamente de “roteiros de arte pública”. Na altura, o artista plástico Pedro Cabrita Reis já andava a pintar a barragem da Bemposta no Mogadouro com um amarelo que a faz “sobressair na paisagem do Parque do Douro Internacional”. Reacções da população: “É uma cor muito horrível”, “Um amarelo muito esquisito.” e, com uma possível aplicação mais ampla,  “Fui à Espanha. À vinda para cá fiquei assustada.” Da parte da Edp defende-se que:

“É uma homenagem à própria construção, aos operários da construção, aos engenheiros da construção, e que expõe para fora aquilo que está escondido naquele tipo de barragem: a cor das máquinas. Em que permite à região assumir isso como um activo turístico.”

Note-se o paralelismo entre a piada e a realidade, que deixa a piada nitidamente para trás. Atente-se também na ideia da arte como uma maneira de homenagear uma coisa que estava escondida – a maquinaria – tornando-a num suposto “activo turístico”, numa espécie de passe de mágica conceptual: se Duchamp dizia que arte era tudo o que um artista diz que é arte, porque não aplicar isso aos desastres ambientais? Perceberam? Eu também não.

(Thx à Rita Falcão Monteiro pela chamada de atenção. Tentei embeber o vídeo da notícia, mas nada feito. À falta de melhor, deixo aqui o link para o Facebook da Sic Notícias.)

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design

7 Responses

  1. Dário C. diz:

    Gostava apenas de salientar que, a meu ver, esta intervenção não pretende salientar apenas a maquinaria. Compreendo que seja esse o argumento da EDP, mas espero que esse pequeno excerto não represente tudo o que foi dito.

    A arquitectura associada à construção da barragem de Bemposta, (e não só, ver o caso de Picote), são os melhores exemplos da arquitectura moderna em Portugal.
    Isto é, em paralelo às barragens, foram construídas uma série de infraestruturas que apoiavam o funcionamento da “maquinaria”. Isso sim é a parte escondida. A capela, as casas dos operários, casas de pessoal dirigente, a piscina, a pousada e por aí fora.

    Tudo desenhado por três jovens arquitectos formados nas Belas Artes nos anos 50, João Archer, Nunes de Almeida e Rogério Ramos.
    Saliento com grande destaque Rogério Ramos, o único morto dos três, tinha apenas 49 anos. Os seus desenhos são impressionantes.

    Apesar da várias críticas, das quais não posso discordar, ao regime, à ideologia e aos métodos e até ao Modernismo, a arquitectura em si, é de facto impressionante.

    Não quero estar a prolongar o comentário e entrar em demonstrações das qualidades destes empreendimentos, algo que seria fácil e muito interessante, mas longo.

    Espero apenas que acreditem (mas estejam à vontade para ir confirmar) quando digo que esta barragem de facto não é uma barragem qualquer. A relação entre arte e engenharia existe de uma forma notória e notável pelo que, uma intervenção de um artista plástico não me parece nada desapropriada. É evidente que pela limitada explicação da EDP, qualquer um teria o dever de indignação, mas conhecendo a mais provável relação entre a intervenção e a sua intenção, o cenário é bastante diferente.

    “Pigmentar” betão para lhe fugir parece-me uma péssima ideia, agora pinta-lo para evidenciar aspectos que lhe estão subjacentes numa perspectiva histórica, não me parece assim tão mal.

    A verdade é que há coisas que ficavam melhor quando estavam escondidas.

  2. Sérgio C. diz:

    Pela qualidade da obra publica infraestrutural recente que se tem visto, desconfiava já que estas barragens, obras de referência no contexto modernista português, estariam em perigo com as intervenções de reforço de potência, muito provavelmente sem acompanhamento histórico mas uma intervenção puramente tecnicista.
    Agora, com esta suposta intervenção artística, tenho a certeza de tal.
    Magoa-se o Douro Internacional e a própria obra de engenharia/arquitectura, que o tempo tivera o cuidado de integrar no lugar.

    • Dário C. diz:

      Pelo contrário.

      As intervenções de reforço de potência possibilitaram reabilitações da obra arquitectónica que estava completamente abandonada e em degradação.

      Esse é o caso de Picote, Miranda e Bemposta, que foram, já à alguns anos, classificados como património nacional.

      http://www.igespar.pt/en/patrimonio/itinerarios/industrial/17/

      Foram estabelecidos limites de forma a prevenir a eventual descaracterização destes empreendimentos.

  3. […] possível conhecer a reacção de Pedro Cabrita Reis às críticas negativas de que foi alvo a sua intervenção na barragem da […]

  4. […] vai-se percebendo um padrão: aqui junta-se arquitectura de renome e intervenções artísticas em larga escala como tentativa de […]

  5. […] Cabrita Reis para a pigmentação e nem quinze dias depois soube que ele já estava a tratar do assunto. Dois anos depois, a Joana Vasconcelos junta-se à festa. E não devia ser surpresa nenhuma: em […]

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