The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Texas

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Quando era muito novito, ainda na nesguinha final da década de 1970, os meus pais mudaram-se de Lisboa para Vila Real de Trás-os-Montes, uma coisa que para mim foi traumática.

Da cidade branquinha com semáforos, metro, eléctricos e autocarros de dois andares, do quarto andar em Alcântara com vista para o rio de onde se podia ver sem grande esforço submarinos e fragatas enfunadas a passar por baixo da grande ponte vermelha cujos pilares ficavam quase ao fundo da rua, disto tudo saímos para um apartamentozito numa rua estreita separada por um muro tosco de pedregulhos de um prado seco onde vagueavam umas tantas vacas de grandes traseiros recobertos de crostas castanhas, estaladas, sempre com um bando de varejas a orbitar (desde essa altura que encaro as vacas dos desenhos animados como seres ainda mais mitológicos que um unicórnio). Mais ao fundo, dominando o horizonte, a silhueta em forma de tarte da Serra do Marão.

Trinta anos depois, aquela ruazita fica em pleno centro da cidade, mas, na altura, para um rapazito de Lisboa, era o fim do mundo, com cardos, giestas, vacas e vinhas. Por comparação com o grande estuário e as grandes vistas ensolaradas de Lisboa, Trás-os-Montes parecia-me uma designação quase demasiado literal: montes atrás de montes sem uma linha de horizonte que me desse alguma esperança.

Mas havia coisas boas por ali e uma delas era o velho comboio que fazia a ligação entre Chaves (a Norte) e a Régua (ao Sul) – chamávamos-lhe “Texas”. Duas carruagens com assentos de madeira envernizada, puxadas por uma automotora mais recente, arrastando-se muito devagarinho pelo meio dos pinhais e das silvas, empoleiradas numa linha de carris apertadinhos, a quase um metro um do outro. Perdi por pouco a locomotiva a vapor que ainda é possível ver neste documentário dos anos 1970 mas ainda apreciei as varandinhas das carruagens que pareciam saídas duma BD do Lucky Luke. Mais tarde, quando vim estudar para o Porto, já se fazia a viagem em carruagens dos anos quarenta-cinquenta, sujas mas ainda assim bonitas. A última viagem que fiz, já neste século, foi numa automotora que poderia passar por um autocarro urbano, mas a beleza da linha ainda era a mesma: grandes voltas lentas por valezitos estreitos com um riachozito muito lá ao fundo, passando por estaçõezitas brancas ainda com depósitos de água para as locomotivas.

Pouco tempo depois a linha encerrou, não sei porque motivo, e retiraram os carris. À frente da estação de Vila Real só ficou uma grande extensão de cascalho miúdo. Não tive muitas esperanças que voltasse a funcionar.

Esta semana lembrei-me da velha Linha do Corgo porque uma amiga me disse que queria percorrê-la a pé descendo de Vila Real até à Régua, um projecto que me fascina porque era um dos meus sonhos de criança – digo-o literalmente: às vezes sonhava com isso à noite. No mesmo dia soube pelo Público que a CP se preparava para leiloar o velho Texas, entretanto restaurado, sem informar sequer o Museu ferroviário português – coisa que já nem sequer espanta muito.

Fiquei ligeiramente mais boquiaberto quando, ao consultar a Wikipedia, descobri que em 2010 Pedro Passos Coelho – também ele Vila Realense adoptivo e na altura presidente da Assembleia Municipal da cidade* – tinha aprovado uma moção exigindo ao governo a continuação das obras na linha com vista à sua reabertura. Apenas para a encerrar definitivamente um ano depois, quando chegou ao governo, preparando-se agora para vender à socapa as suas relíquias.

Para mim, é apenas mais outro símbolo de um país que se arruina, não apenas no sentido económico, mas no literal, onde até a pobreza anacrónica dos comboios rurais se desfaz em ruínas, não para dar lugar sequer a uma promessa idiota de progresso, mas simplesmente de sobrevivência cega.

*Nem fazia ideia disto até ao homem ter sido eleito Primeiro Ministro.

Update: juntei uma imagem vinda da página do facebook Cidade de Vila Real.

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Filed under: Cultura, História, nostalgia, Prontuário da Crise

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