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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Mão Invisível, os Rissóis e a Dona de Casa

Tenho andado a ler mais sobre economia do que alguma vez achei possível. Não apenas o que aparece nos jornais ou telejornais portugueses e que, sobretudo na televisão, é quase unânime na sua defesa da austeridade. Tenho lido mais o blogue de Paul Krugman e os artigos de John Cassidy, neste caso com o bónus das ilustrações do genial Cristopher Niemann – qualquer um deles bastante céptico em relação às virtudes morais do austeritarismo.

Também comecei a ler nos tempos livres alguns manuais sobre o assunto, só para tentar perceber melhor o vocabulário e o enquadramento disciplinar da economia. Li muito parcialmente alguns dos clássicos desde Adam Smith a John Maynard Keynes, passando por Milton Friedman.

Não digo isto para dar a entender que já percebo alguma coisa mas para dizer que se calhar já atingi o patamar socrático do só sei que nada sei. Talvez por isso me fascinem as crónicas de José Manuel Fernandes, a cada sexta mais conservadoras e populistas, mais obviamente neoliberais, sobretudo quando nega a existência de tais doutrinas (como pode o mero senso comum ser uma doutrina, queixa-se regularmente ele).

Nesta última crónica reabilitou as políticas económicas da senhora Thatcher, em particular a sua crença que se deve governar as finanças de um país como uma dona de casa as do seu lar. É uma idéia simples, básica e intuitiva – quando a ouvimos é como se sentíssemos o cheirinho da alfazema na roupa dobrada e dos rissóizinhos acabados de fazer na bandeja de louça (com um guardanapinho por baixo para secar o óleo). Infelizmente, apesar do encanto doméstico que a liga à experiência quotidiana do dia-a-dia, é apenas uma analogia; assenta na convicção que a economia de um país funciona como a de uma casa. Mas numa casa não costuma haver oferta e procura, se existe de todo é na sua relação com o exterior, a rua, as outras casas, as lojas, o mercado, a cidade, o país – que supostamente deveria funcionar como uma casa. Uma pescadinha de rabo na boca, portanto.

O modo como a economia de um país não funciona como a de uma casa foi talvez resumido da forma mais elegante pelo próprio Adam Smith, quando disse que era uma mão invisível que a organizava, mantendo tudo a funcionar sem que as pessoas que fazem parte dela tenham consciência de mais nada que não o seu próprio interesse, das suas próprias ambições egoístas.

Os neoliberais actuais acreditam que a tal mão só funciona bem se for mesmo invisível, o menos regulada possível, mas não me parece que Smith, um dos fundadores do pensamento teórico sobre a economia, acreditasse nisso. Pensar a economia implica tornar a mão visível, indo para além do mero senso comum.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. Nelson diz:

    Completamente de acordo (pausei a leitura do texto na parte do J Manuel Fernandes porque . Parece ter-me dado o mesmo nirvana ao ler a crónica de hoje. Parece que foi mesmo um rematar conclusivo de semanas e semanas de opiniões mais ou menos abtractas nesse território, mas hoje sem dúvida que cheguei ao fim com o sentimento que descreve nesse parágrafo (volto à leitura do texto)

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