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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Social, mas em itálico

A implosão de uma das torres do Aleixo foi um dos acontecimentos do mês, uma espécie de fogo de artificio de luxo, o género de espectáculo que, para os políticos do Porto, foi sempre receita segura para atrair a atenção da populaça, com o requinte acrescido, neste caso, de se estar a explodir casas a sério, onde pessoas a sério viveram – quase um sacrifício humano, portanto.

Mas não se pode acusar o espectáculo de ter sido populista. Houve vaias e alguma da maquinaria usada na remoção dos destroços foi vandalizada. Afinal, o propósito do tal sacrifício humano foi transformar um bairro pobre em condomínios de luxo, com vista privilegiada para o Douro e tudo. A implosão de um bairro social acaba por ser o monumento adequado ao fim do próprio Estado Social, considerado inevitável por muita gente.

A mim pareceu-me uma maneira bem pouco económica de gentrificar um bairro social. Há uns anos, o Bairro da Bouça, projetado por Siza Vieira como habitação social e incompleto durante décadas, meia dúzia de casebres modernistas enferrujados e amarquizados junto à linha de comboio, acabaria por ser terminado, os seus apartamentos comprados ao preço da chuva por jovens arquitectos, designers e artistas, para habitação, mas sobretudo para investimento – afinal, sempre é uma casita do Siza.

No fundo, trata-se de uma versão abreviada do percurso da arquitectura e do design modernista, tal como foi traçado por Tom Wolfe em From The Bauhaus to Our House: soluções inóspitas, geométricas e abstractas, testadas primeiro em bairros sociais como parte de programas patrocinados pelo Estado, para serem finalmente aplicadas em sedes de empresas ou vivendas de luxo. Depois do próprio arquitecto atingir a consagração, a habitação social que construiu na sua juventude torna-se também em habitação social – mas agora em itálico.

Seria portanto mais económico – ou simplesmente menos explosivo – convidar Siza ou Souto Moura para fazerem uma “pigmentação” do Aleixo, à lá Viegas. Bastaria um destes dois pintar aquilo tudo de branco com uma tinta especial, daquelas feitas à mão a partir de mármore italiano, para que não houvesse arquitectozito que não se pelasse por mudar para ali. Olaré.

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, Economia, Política

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