The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Piquenique à Beira da Estrada

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Enquanto escrevia sobre os fragmentos da nova auto-estrada que se vai sobrepondo à paisagem transmontana, uma jovem mãe atirou-se com o seu bebé de um viaduto da A24, que liga Vila Real a Chaves, de cerca de quarenta metros de altura (a criança sobreviveu). A notícia não dá pormenores, sugerindo um possível suicídio sem contudo o nomear.

A menos que a figura seja pública ou a situação dramática, não é costume relatarem-se suicídios na televisão. Calculo que a excepção se deva à criança, mas também à natureza do local, a grande auto-estrada incongruente sobre montes, casebres, rebanhos e giestas, como o trajecto petrificado de um aparelho voador, uma estação orbital quase rasante. Nas velhas auto-estradas, traçadas para acompanharem o contorno dos montes, ainda era possível, em caso de necessidade, saltar sobre a vedação, entrando pela paisagem à procura de auxílio; agora, o acesso é limitado às poucas entradas de tantos em tantos quilómetros – saltar é como cair entre dois universos, arriscando não apenas a queda mas a violência da reentrada numa paisagem mais antiga.

A notícia lembrou-me certas histórias de Ballard, em particular Concrete Island, sobre um arquitecto que, depois de um acidente de viação, ficaria preso num triângulo isolado entre os acessos a uma via rápida nos arredores de Londres, vivendo aí como um novo Robinson. Ballard era um mestre a revelar a estranheza inerente aos objectos da sociedade moderna, fossem eles carros, centros comerciais ou arranha-céus. Não duvido que estas novas auto-estradas transmontanas o interessariam – só posso especular que histórias tiraria delas.

Ballard fazia parte da recta final de uma época onde a ficção científica ainda era levada a sério por gente como Godard, Kubrick, Borges ou Marker. Em Vila Real, à vista dos pilares colossais, geométricos, que, eriçados pelos braços finos dos cabos e guindastes, interrompem cada vez mais o contorno orgânico dos montes, é possível perceber a razão porque a ficção científica era tão popular na Europa do pós-guerra. Arruinada e atrasada em relação a novas potências como os Estados Unidos ou o Japão, inundada de bens e conceitos que não podia verdadeiramente compreender, dedicou-se à criação de novas mitologias, fossem elas ficção ou filosofia.

Destas narrativas, uma das mais interessantes é o livro que deu origem ao filme Stalker, de Tarkovsky, também ele com um nome rodoviário: Piquenique à Beira da Estrada, sobre uma estranha Zona, resultado do contacto catastrófico com algo extraterrestre, incompreensível, onde era possível encontrar objectos com poderes misteriosos, às vezes benéficos outras vezes mortais. Para um dos cientistas do livro, estes artefactos não passavam de lixo deixado à beira da estrada, como os restos de um piquenique:

“Picture a forest, a country road, a meadow. Cars drive off the country road into the meadow, a group of young people get out carrying bottles, baskets of food, transistor radios, and cameras. They light fires, pitch tents, turn on the music. In the morning they leave. The animals, birds, and insects that watched in horror through the long night creep out from their hiding places. And what do they see? Old spark plugs and old filters strewn around… Rags, burnt-out bulbs, and a monkey wrench left behind… And of course, the usual mess—apple cores, candy wrappers, charred remains of the campfire, cans, bottles, somebody’s handkerchief, somebody’s penknife, torn newspapers, coins, faded flowers picked in another meadow.”

Piquenique é uma novela curta que, na edição americana, é acompanhada de uma outra, intitulada “Tale of The Troika” – é preciso dizer mais?

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Filed under: Design

4 Responses

  1. É o terceiro suicídio deste local… a não divulgação destas notícias é aconselhada pelas organizações de prevenção ao suicídio (se isso faz ou não sentido é discutível, mas…). A escolha do local será bastante prosaica: as probabilidades de sobreviver são nulas com uma queda daquela altura, daí o “milagre” deste salvamento.

    A edição portuguesa do Stalker é da colecção azul de FC da caminho desenhada pelo Cayatte (não me lembro de ter um subtítulo, como saiu depois do filme deve ter adoptado o título do filme).

  2. […] sensação lembra-me a que tive quando vi esta outra obra de […]

  3. […] Há exactamente um ano andava com vontade de ver o Stalker. A razão era simples: passar o Natal em Trás-os-Montes, uma região cada vez mais próxima de um filme de ficção científica dos anos 60-70, aqueles mais cépticos em relação à tecnologia, distópicos, onde a natureza, os desertos, as florestas, não eram apenas uma maneira de poupar dinheiro nos cenários, mas de mostrar que no final, ela acabava sempre por vencer, relva a crescer nas auto-estradas, no meio das ruínas de cidades. Em Vila Real, a sensação é sempre essa, a de um progresso impossível de distinguir da decadência: tuneladoras ao lado de uma estação de comboios abandonada, Porsches estacionados junto a uma carroça enferrujada. […]

  4. […] para ler quando viajo no interior português, recorrente alterado por obras megalómanas é “Piquenique à beira da estrada” dos irmãos Strugatsky, de onde foi filmado o Stalker de Tarkovsky. Cada vez tenho mais a […]

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