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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Discurso Duplo

Sobre o discurso de Natal do Primeiro Ministro, com o seu apelo à confiança e a sua promessa de reformas estruturais na sociedade portuguesa, há pouca coisa a dizer, sobretudo no que diz respeito à confiança. Quanto às reformas, é um discurso deliberadamente ambíguo, que será interpretado de modo distinto por classes distintas.

Se alguém da classe média baixa o ler – um funcionário público ou um professor – achará que as estruturas que Passos quer eliminar, “que muitas vezes não permitem aos portugueses realizar todo o seu potencial, que reprimem as suas oportunidade”, que “protegem núcleos de privilégio injustificado, que preservam injustiças e iniquidades, que não recompensam o esforço, a criatividade, o trabalho e a dedicação”, são as classes altas que representam o grande capital – banqueiros, empresários, especuladores financeiros, etc. Esta interpretação parece confirmar-se quando argumenta “que o crescimento, a inovação social e a renovação da sociedade portuguesa venha de todas as pessoas, e não só de quem tem acesso privilegiado ao poder ou de quem teve a boa fortuna de nascer na protecção do conforto económico”.

Mas se este discurso for interpretado pelas classes mais baixas ou pelas mais altas – que em muitos casos até acreditam que são baixas –, parecerá sem dúvida um ataque à classe média, aos sindicatos e à função pública, que através de lobbies e direitos adquiridos tiram o emprego às pessoas comuns e impedem os empresários de desenvolver o país.

Do mesmo modo, a confiança nas instituições que Passos pede pode parecer uma defesa de um Estado forte, que seria contraditória vinda de um governo que não tem feito outra coisa senão cortar nessa área. Contudo, quando afirma que, quando fala de confiança, não se refere apenas à “dos cidadãos nas instituições, mas também da confiança que temos uns nos outros, nas nossas relações profissionais, nas nossas relações sociais e nas nossas relações de cidadania”, sublinhando “a importância de relações de amizade, de solidariedade e de confiança”, acaba por ser um discurso que, suavemente, desloca a ênfase das instituições públicas para a esfera pessoal, familiar, privada.

Estes valores nas classes mais baixas significam um regresso aos valores mais básicos, numa sociedade que deixou de funcionar. Nas classes mais altas continuarão a significar uma legitimação de jogos de influência baseados na família e em conhecimentos. Para a classe média, que derivava o seu pouco poder de ascenção social da ligação à administração pública, as relações de amizade e solidariedade só ultrapassavam as da mera sobrevivência por se organizarem dentro das estruturas maiores do Estado – sem estas cairão de novo na miséria.

E é claro que toda esta interpretação depende do discurso do Primeiro Ministro ter algum tipo de valor além de fazer vibrar moléculas de ar entre a sua boca e o ouvido dos portugueses. A idéia que o discurso tem um código duplo assume que existe por aqui alguma competência, quando o mais provável é tratar-se do mais primitivo senso comum da política actual: falar à esquerda e fazer à direita.

Filed under: Política, Prontuário da Crise

2 Responses

  1. Kawazaki John Wayne diz:

    LOL, eh pá, faça lá update do seu sistema, quem é que ainda usa expressões como “grande capital”? oh fuck mas somos tão pseudo intelectuais que continuamos a usar expressões que já nem fazem sentido no século XXI. não sei se lhe avisaram mas o muro já caíu.

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