The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ano Novo

Tentando esgravatar uma coisa positiva para dizer sobre 2012, vou arriscar que este será o ano a partir do qual será necessário começar a reconstruir a democracia de raiz.

Numa democracia importa sobretudo o debate público de ideias, mais até do que os processos eleitorais que podem, mediante esse debate, ser modificados a cada momento. O que interessa sempre, em democracia, é salvaguardar esse debate.

Pelo contrário, este ano esse debate reduziu-se tragicamente pelo recurso ao argumento da inevitabilidade técnica e económica, que procura excluir todas as soluções que não sejam neoliberais – privatizações e austeridade, que é como quem diz desinvestimento público, em nome de interesses empresariais.

Neste contexto, foi-se tornando evidente que, para muita gente, o processo democrático é apenas uma formalidade nociva, que só serve para sobressaltar a credibilidade de um país perante os mercados. Diz-se que o governo se reduziu agora a uma questão técnica, científica – isto apesar da austeridade, por exemplo, ser habitualmente justificada recorrendo ao senso comum, comparando as finanças de um país com as de uma dona de casa. É uma tecnocracia de forma apenas, assente sobretudo num moralismo básico, numa casmurrice irracional que não tem nada de técnico ou de científico – que raramente consegue justificar as suas escolhas para além de repetir que são inevitáveis, que nunca reavalia os seus resultados, mesmo quando estes contradizem sistematicamente as suas hipóteses, que insiste em aplicar a mesma solução até os resultados mudarem.

É curioso que num sistema tenta descredibilizar a todo o custo a especialização universitária, o governo seja cada vez mais o domínio de supostos especialistas, avaliados mais pelo rigor formal com que aplicam os seus programas do que pelos seus resultados esperados – mais para demonstrar contrição moral aos credores do que para conseguir realmente crescimento, por exemplo.

Contra tudo isto será necessário recuperar a própria idéia de democracia, recuperando as instituições que a podem sustentar – o ensino, a cultura mas sobretudo o debate público, não apenas o do governo, mas em todas estas instituições, de onde tem desaparecido, substituído por outra tanta tecnocracia.

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Ensino, Política, Prontuário da Crise

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