The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Occupy Tempos Livres

Nestas férias aproveitei para pôr desde já em prática a minha primeira resolução de ano novo: ter realmente férias. Não respondi a mails, não adiantei trabalho, não fui a reuniões, não marquei reuniões. Li o que me interessava sem outro objectivo que não os meus próprios caprichos. Tentei assegurar a mesma coisa aos meus alunos, não lhes marcando trabalhos imediatamente para depois das férias, o que os obrigaria a sentirem-se culpados durante todo o Natal, uma coisa talvez católica mas sobretudo injusta. Com o governo a cortar oficialmente feriados e a aumentar os horários laborais, parece-me que se deve dar o maior valor possível às férias, aos períodos de descanso e aos tempos livres.

Como professor universitário, já me tinha habituado a estratégias de gestão empresarial que consistem em ir colonizando a privacidade das pessoas, marcando-lhes reuniões para a hora do almoço, mandando-lhes mails depois do expediente, obrigando-as a perderem o seu tempo a escrever relatórios, requerimentos, que na maioria dos casos são apenas instrumentos de poder, o equivalente burocrático a rezar uns tantos terços – preencher o mais totalmente o pensamento e a vida do trabalhador simplesmente porque está a ser pago e de outro modo seria um desperdício, um pecado.

Dentro da cultura, boa parte das carreiras, mesmo as bem sucedidas, é feita nos tempos livres – é aí que se escreve o livro, actualiza o blogue, prepara a exposição, etc. O emprego diurno limita-se a uma maneira de financiar essa carreira, sobretudo num país onde há uma recusa sistemática de financiar directamente o trabalho na cultura, apenas (e quando muito) as grandes instituições culturais. Paga-se a gestão e a máquina administrativa mas só muito raramente e sempre de modo insuficiente aos artistas, que muitas vezes se financiam trabalhando para as mesmas instituições que não lhes pagam enquanto artistas, apenas como funcionários.

Muitos artistas acreditam que a obrigação de desenvolverem a sua carreira deste modo lhes garante autonomia, liberdade, mas trata-se apenas de uma colonização empresarial dos seus tempos livres. Para ser levado a sério, aquilo que produzem fora do expediente continua a ser legitimado directa ou indirectamente pelas tais instituições. Na verdade, trata-se apenas e sempre da liberdade para trabalhar para outrém de graça. Ou seja: o subfinanciamento da cultura das últimas décadas criou uma cultura que conceptualiza e monumentaliza o trabalho gratuito e a precariedade laboral.

Aquilo que define o direito ao trabalho, consagrado na maioria das constituições, não é a obrigação de trabalhar sempre e a todo o custo mas os limites desse trabalho, aquilo que o define do lado de fora: se é pago, como é pago, mas também o horário em que é feito – os tempos livres também são um direito, talvez o maior de todos.

Um dos melhores momentos de Downton Abbey, uma série que conta a história dos habitantes de uma antiga casa senhorial inglesa nas primeiras décadas do século XX ilustra a perplexidade sarcástica da matriarca da família, salvo erro uma velha baronesa, quando ouve falar pela primeira vez de um conceito novo chamado “fim de semana”. Ao contrário do que possa parecer, o lazer e os tempos livres são uma invenção proletária.

Sem nenhuma ironia, talvez seja a melhor altura de promover uma espécie de Occupy Tempos Livres.

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Filed under: Burocracia, Crítica, Cultura, História, Política, Prontuário da Crise

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