The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Hipsters Comunistas do Espaço Sideral

Comecei a ler os livros de Iain M. Banks ainda na década de oitenta, com The Wasp Factory, uma coisa verdadeiramente inclassificável sobre os rituais de um jovem assassino em série numa ilha rural. Não era um policial; não era uma história de terror; não era um romance; encaixava na memória imagens duradouras, sobretudo de cada uma das mortes – lembro-me de uma envolvendo uma menina estrangulada com a guita de um papagaio gigante que a arrastou para o mar e de outra, recorrendo a uma velha bomba por detonar, meio enterrada na praia.

Nos livros seguintes bifurcaria para a ficção científica, alternando uma carreira de escritor sério com épicos estelares gabados pela escala quase absurda da destruição e pela densidade da intriga política de bastidores. Os melhores dedicou-os à Cultura, uma civilização concebida como reacção às tendências conservadoras de direita que Banks acredita dominarem muita da ficção científica actual, onde a esquerda assume quase sempre o papel negativo da distopia pessimista e totalitária – o melhor exemplo ainda continua a ser o 1984 de Orwell – ou o papel positivo mas vago de rebeldes que assumem o poder no fim da história, vivendo felizes para sempre sem que se chegue a perceber muito bem como.

A Cultura é uma utopia de esquerda bem sucedida, uma sociedade não-hierárquica de grande escala onde não há dinheiro ou classes, dirigida em parceria por humanos e grandes computadores chamados Mentes, muitas vezes associados a naves ou estações espaciais que funcionam como o seu corpo. Banks não descreve um comunismo sisudo mas uma coisa mais complexa, próxima da esquerda moderna, uma espécie de cena cultural alternativa militarizada, de hipsters que vão para a guerra em naves de nomes irónicos, mais apropriados talvez a bandas de garagem – Big Sexy Beast; A Series of Unlikely Explanations; Never Talk to Strangers; Ultimate Ship The Second; Funny, It Worked Last Time.

Nos seus contactos com outras civilizações interessam-se mais pela produção cultural do que por armas ou tecnologia, coleccionando-a obsessivamente. Em 1977, teriam visitado a Terra numa expedição prolongada, debatendo se haveriam ou não de a contactar, absorvendo-a no seu sistema como tantos outros planetas e impérios – o que seria muito tentador, quanto mais não seja pelos seus serviços de saúde que incluem (sempre de modo voluntário) a possibilidade de cada pessoa prolongar a sua vida até às centenas de anos, a cura de todo o tipo de maleitas incluindo membros amputados, mudanças de sexo a gosto, segregação interna de uma panóplia de drogas medicinais, recreativas, etc. Acabariam por decidir manter o nosso planeta como uma experiência de controle, um reserva perfeita de capitalismo arcaico.

A história é contada em The State of The Art, uma novela curta de 1989, cuja capa consegue ser brilhante a mais do que um nível, ilustrando uma invasão discreta de hipsters comunistas, superpoderosos, irónicos e letais, com um pastiche muito óbvio duma das capas mais conhecidas dos Duran Duran (a tal do Malcolm Garrett e do  Patrick Nagel).

(E sim: este texto foi escrito para fazer par com este).

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Filed under: Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. […] dos Zombies, dos Vampiros e dos Hipsters, nesta série de textos dedicados a economias radicalmente diferentes da nossa chegou a vez de […]

  2. […] internet, Consider Phlebas tinha que vir no pacote, o primeiro livro que da série que dedicou à Cultura, uma utopia de esquerda bem sucedida. Não podia ser de outro modo. Desde essa altura, fui lendo […]

  3. […] comprado uma primeira edição de uma das minhas histórias favoritas, The State of the Art, porque a capa era bonita a lembrar as dos Duran Duran e porque era barata, tanto como uma edição nova. A fonte usada, que me parecia familiar, é a […]

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