The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A estética do silêncio

As imagens são pacíficas, quase bucólicas: uma colina de erva quase branca sob o céu cinzento, uma estrada vazia com nuvens negras ao fundo, o pátio de estacionamento de um motel visto da varanda do primeiro andar, uma rua de prédios modernos com um animal de carga e um automóvel muito lá ao fundo, o padrão pintado de faixas, setas brancas, passadeiras no pavimento de uma rua, com sombras de árvores de um dos lados. Em alguns casos, a paisagem é tão familiar que mesmo isolada do acontecimento que a tornou famosa ainda a conseguimos reconhecer – aquele padrão no pavimento é o da praça de Tianamen, foi naquela colina que teria morrido um soldado durante a Guerra Civil Espanhola, sabemos que aquele motel fica em Memphis.

Poder-se-ia pensar que estas imagens são registos do antes ou depois de um Acontecimento, parentes pobres, quase gémeos, de uma celebridade onde ainda conseguimos descortinar uma parecença física, mas mais simples, mais pacata, interessante apenas por isso. São apenas um projecto artístico, uma reflexão sobre a veracidade das imagens fotográficas, sobretudo quando se assumem como documentais, de como a interpretação de uma imagem quando entra na esfera pública escapa completamente ao controle do fotógrafo.

Não é uma reflexão nova, tanto por parte de fotógrafos como de ensaístas e teóricos, desde Benjamin a Sontag passando por Errol Morris. O único estremecimento possível neste caso tem a ver com a processo como esta reflexão é feita, demonstrando na prática a facilidade com que se pode obliterar um acontecimento usando apenas a tecnologia corriqueira do Photoshop.

Se definirmos a censura como a remoção deliberada de algo da esfera pública, percebemos que este não chega a ser um acto de censura (porque é apresentado em público, às claras), mas faz certamente parte de um conjunto crescente de imagens que usam processos de censura como estética – livros destruídos para se parecerem com paisagens esculpidas, cartazes políticos emudecidos pela remoção dos seus slogans –, actos violentos, muitas vezes irremediáveis, praticados para nos lembrar que há actos violentos e irremediáveis.

Por outras palavras, se muitas vezes é pedagógico revelar em público os processos destrutivos da censura, será possível falar sobre censura sem a reencenar, mesmo que simbolicamente? Será a arte sobre a censura como uma espécie de vacina, a versão desmilitarizada de uma doença que nos estimula o sistema imunitário ? Ou apenas uma forma encapotada de a irmos praticando?

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Filed under: censura, Crítica, Cultura, Política

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