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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Animais Iguais

Não é muito difícil ver uma tendência em tudo aquilo que aconteceu na vida pública portuguesa esta semana – nomeações suspeitas e mal explicadas de gente ligada ao governo para uma empresa pública privatizada, autarcas que devem um monte de dinheiro a uma empresa pública são nomeados para a administração dessa empresa, ex-ministros que promovem a carreira artística dos seus filhos de modo pouco claro, sociedades secretas, etc. Qualquer que seja o nome que lhes damos, clientelismo, caciquismo, amiguismo, nepotismo, são situações em que alguém se aproveita das suas relações privadas, pessoais, para de algum modo se favorecer a si mesmo e aos seus à custa do interesse público.

Numa democracia, toda a gente deveria ter os mesmos direitos e deveres, mas estas situações demonstram que algumas pessoas são mais iguais do que outras. Não é nada que não se saiba, mas o que pasma é a desfaçatez com que tudo isto é feito e justificado, como se fosse um direito evidente – e chega-se a dar a entender que descaramento e transparência são sinónimos, como se descrever o processo em voz alta chegasse para o justificar publicamente.

Choca que haja gente que assuma estas aldrabices como inevitáveis, desvalorizando as críticas como mera inveja – a resposta típica de uma sociedade desigual, que desvaloriza a própria ambição de justiça (ou até de democracia) como não passando de um defeito moral, uma falta de educação.

Percebe-se por tudo isto que havia direitos adquiridos que pelos vistos foi preciso perder pelo interesse do país – direitos laborais, uma função pública decente, saúde, educação –, mas há outro tipo de direitos que seria de mau tom pôr em causa, porque são naturais.

Dizer que a resposta a esta crise veio aumentar a desigualdade social, fazendo regredir o pouco avanço que tínhamos alcançado nos últimos anos, é uma afirmação sustentada por estatísticas e por gráficos, que relacionam investimento público, distribuição da carga fiscal, segurança social, etc., mas é importante ir sublinhando que vivemos numa sociedade com uma cultura que vai sustentando essa desigualdade, onde o próprio discurso público sustenta a injustiça e a vai justificando.

É sintomático que áreas como o design, que assumiu na sua génese modernista o papel de interface entre o cidadão comum e a vida urbana e cívica, se assuma agora em Portugal como uma actividade empresarial ligada ao bibelô de luxo – como poderia ser de outra maneira, se é produzido à custa de trabalho precário, ajustes directos pouco claros, etc. É sintomático também que a arquitectura portuguesa, com todo o seu renome internacional, seja usada em Portugal como contrapartida para intervenções ecológicas de ética duvidosa. Que as artes façam a mesma coisa, e por aí adiante.

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Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

2 Responses

  1. João Matos diz:

    O que é interessante nestes “posts” é que não tens comentários. Só quando individualizas é que as “pessoa” fala, opina. Sintomático de incultura democrática (seja esta expressão o que for) , não sabemos distinguir do macro para o micro, do essencial para o acessório.
    Concluindo, não temos ainda uma prática enraizada de discussão, opinião e de crítica (verificação, reflexão).

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