The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Governo dos Negócios Estrangeiros

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Um dos livros ao qual vou sempre voltando ao longo dos anos chama-se The Aran Islands, de John Millington Synge, um dramaturgo da viragem para o século XX que, como muitos outros irlandeses nacionalistas da época, foi a este arquipélago aprender o Gaélico, num dos poucos sítios onde ainda era falado.

Eram ilhas pobres, rochosas, onde até a terra arável tinha que ser criada laboriosamente a partir de algas secas, um pequeno arquipélago ao largo da ilha um pouco mais rica que era a Irlanda, por sua vez dominada pela ilha então poderosa da Inglaterra.

A narrativa é documental, mas não seca, muito atenta aos pequenos atritos que polvilham a vida de um país pobre e colonizado, onde até o tempo local tinha uma identidade ligeiramente distinta. Synge reparou que embora nos dias de sol as refeições fossem servidas com grande pontualidade, nos dias nublados a sua anfitriã atrasava-se e adiantava-se constantemente. O motivo era subtil: as casas da ilha tinham duas portas, a norte e a sul, as mulheres sentavam-se a fazer os seus afazeres na mais abrigada e viam as horas pela posição da sombra da porta.

As querelas resolviam-se em comunidade. O sistema de justiça inglês, poderoso mas incompreensível para a cultura local era acatado com um rigor humilde – um criminoso chegava a deslocar-se a pé largas milhas, sem grilhetas, guardas ou qualquer tipo de escolta, para se apresentar na prisão onde iria cumprir a sua pena. Mas se a sentença parecesse injusta à comunidade, havia longos feudos, com feridos, mortos e danos de propriedade.

Lembrei-me destes atritos a propósito da crise, em larga medida provocada por uma dívida considerada incompreensível, injusta, mesmo por quem defende o seu pagamento. Não duvido que o maior acto de revolta português seja a construção de um país paralelo, com uma política paralela, uma justiça, uma estética e uma economia próprias, servindo o governo apenas como uma espécie de fachada descredibilizada internamente, uma espécie de feitoria na colónia que vamos sendo, e que só serve de interface nas relações com exterior, uma espécie de Governo dos Negócios Estrangeiros.

(Imagem do próprio Synge)

Filed under: Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

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